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Em entrevista, coordenadores do DCE defendem o pragmatismo na política

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Escrito por Cristiano Torres, SECOM/UnB

Na última terça-feira, 11 de dezembro, a chapa Aliança pela Liberdade foi reeleita para o segundo mandato no Diretório Central dos Estudantes, com 45,08% dos 7,5 mil votos válidos. A equipe tomou posse em reunião do Conselho das Entidades de Base (CEB) e na presença de representantes de 24 centros acadêmicos.

 

Em entrevista à UnB Agência, concedida logo em seguida, os três novos coordenadores gerais do DCE, Pedro Ivo Santana Borges de Lima (Engenharia Civil), Luiza Ramos (Filosofia) e Nicolas Powidayko (Economia) reconheceram erros da primeira gestão, ressaltaram virtudes, falaram sobre a relação com os coletivos de oposição e justificaram a ampla maioria nas urnas como fruto de um trabalho ousado de equipe.

UnB Agência - Que avaliação vocês fazem do primeiro ano à frente do DCE?
Pedro Ivo -
Na minha avaliação foi uma gestão boa, motivo pelo qual nós fomos reeleitos. Foi uma atuação diferente, que mudou os paradigmas do que era o DCE antes de nós ganharmos. Nós demos uma cara nova ao movimento estudantil. É possível observar isso pelo destaque que tivemos em várias mídias, nas redes sociais, fomos capa do Correio Braziliense também. Essa vitória começou com um grande impacto: "Nossa! Aconteceu alguma coisa diferente. Alguma coisa mudou". Obviamente, nós começamos sem experiência e fomos, aos poucos, adquirindo conhecimento. Então, como é normal, a Aliança teve um ganho de maturidade no decorrer da sua gestão. Apesar de ter sido criada em 2009 e ter feito parte de conselhos, a Aliança não tinha uma visão de gestão nem de como tocar o Executivo. Nós geramos essa mudança na forma como lidamos com as situações, como respondemos, e como procedemos para cumprir com as nossas propostas.

UnB Agência - Como é essa nova cara que vocês deram ao movimento estudantil? Qual foi a inovação que vocês realizaram?
Pedro Ivo -
A Aliança pela Liberdade surgiu em 2009 com uma proposta bastante diferente. Isso é perceptível no princípio primordial do grupo, que é o apartidarismo. O que é isso? Nenhum membro tem filiação partidária. Nós não consideramos errado que uma pessoa com filiação partidária participe do movimento estudantil, mas essa é a garantia que damos para o nosso eleitor. Essa é uma prova material. Nenhum dos 140 membros da Aliança pela Liberdade tem qualquer filiação com qualquer partido político. Isso não quer dizer que a Aliança seja apolítica, até porque o que fazemos é política. Mas nós mostramos que não estamos sendo pautados por nenhuma entidade externa, principalmente os partidos políticos. O que nós percebemos muitas vezes no movimento estudantil, e não só na UnB, é a presença usual dos partidos. E tomamos essa iniciativa porque acreditamos que o DCE deve servir aos estudantes e não aos partidos. Mudamos também ao defender um diretório que pauta tão somente a realidade e os problemas dos que estudam na Universidade de Brasília. Por exemplo, uma questão que foi muito discutida aqui na UnB: o caso Cesare Battisti. Essa não é uma prioridade do movimento estudantil. Pode ser discutido? Pode. Deve haver um espaço para discussão? Deve. Mas não é uma prioridade do DCE ater-se a um ponto como esse. Na nossa concepção, a prioridade é mudar a realidade dos estudantes que precisam ter tranquilidade para ir até o seu carro à noite, ter tranquilidade para estacioná-lo ou ir à parada de ônibus sem medo de alguém abordá-lo ou de sofrer algum tipo de dano. É a facilidade de não ter que se locomover todos os meses até o Conic ou qualquer outro lugar para recarregar o passe livre. A nossa prioridade é trazer facilidade. Essa é palavra.
Luiza Ramos -
Temos que denunciar para a sociedade o estado da UnB, que precisa ser melhorado. Desde 2009, quando entramos aqui, ela foi decaindo em qualidade na sua excelência, na infraestrutura e isso não faz jus ao orçamento que ela tem ? ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que entrou na Universidade ? e nem faz jus a outras universidades federais que estão à frente de nós em aspectos como esses e em pesquisa. Achamos que o estudante precisa ser ouvido. Além do DCE, os estudantes precisam cobrar essas mudanças. Nós temos que dar voz a eles indo aos conselhos, buscando o diálogo e não invadindo a Reitoria. Os estudantes batalham para ingressar aqui e quando chegam encontram salas de aula sem carteira, não há luz e várias outras questões pequenas do dia a dia. Vão ao banheiro e não há sabonete. Isso não faz sentido numa universidade com o segundo maior orçamento entre as federais.
Pedro Ivo -
Outro ponto é fortalecer as vias institucionais. Nós temos problemas com itens como papel higiênico e sabonete. Mas como vamos resolver isso? Sentando-nos à mesa com o prefeito, com o diretor da área e perguntando: "Do que você precisa? Como podemos ajudar?". Nesse caso específico, nos foi dito que poderíamos fazer um relatório mensal, poderíamos tirar fotos mostrando onde há deficiências como fiação exposta ou buracos no teto. Então, é isso que fortalece as vias institucionais,  uma diferença que nós trouxemos para o movimento estudantil. Deve haver espaço para protestos? Achamos que sim. Intervenções? Sim. Mas não temos medo desse diálogo frente a frente. Na verdade, acreditamos que essa é a forma mais fácil. Vamos sempre evitar ao máximo partir para a gritaria, ou meios mais rudimentares. Vamos tentar sempre pautar o diálogo e o respeito. Essa não é uma avaliação nossa. Foi uma avaliação daqueles que votaram em nós. A Aliança é mais pragmática, mais objetiva, mais pé no chão. É ir onde o problema acontece e resolvê-lo. Olhamos a questão com uma certa frieza, vamos até lá e fazemos o que for preciso.

UnB Agência - Vocês acham que a vantagem que vocês obtiveram nas urnas é um resultado dessa mudança?
Pedro Ivo -
Sem dúvida alguma. Isso é um reflexo de que os estudantes da UnB perceberam a mudança, essa quebra de paradigma e reafirmaram a nossa postura. É isso o que eles querem. E reafirmaram de uma forma clara. Não foram só 22% como na eleição anterior. A comunidade acadêmica teve a oportunidade de conhecer um movimento estudantil diferente. Conheceu e gostou. Por isso, não só votou, como votou ainda mais. Os estudantes engajaram-se um pouco mais. Sentiram vontade de participar. Até certo ponto, e não quero parecer arrogante, nós conseguimos trazer a realidade do movimento estudantil para pessoas que não se interessavam por esse assunto.
Luiza Ramos -
Nós contribuímos para esse aumento da participação. Divulgamos mais e mostramos esses resultados. Fomos mais tolerantes nas assembleias e nos conselhos. Muitas pessoas iam ao CEB e eram vaiadas. Até hoje isso acontece. Mas buscamos diminuir isso e trazer mais liberdade para qualquer pessoa que queira ter voz dentro da Universidade. Então, as pessoas reconheceram essa liberdade e aumentaram a participação. Nós colaboramos para que isso acontecesse. Inclusive, votando em casa. Por exemplo, numa assembleia, é preciso estar presente em tal hora, em tal local. Às vezes é difícil. São 33 mil estudantes na UnB. É quase impossível e, por isso, durante muito anos não tivemos quorum. Com a ferramenta Democracia 2.0, demos a oportunidade das pessoas terem voz sem sair casa ou de onde ela estiver.

UnB Agência - Quais foram as principais ações durante o primeiro ano de gestão?
Pedro Ivo -
Foi necessário darmos enfoque na parte da segurança. A semana da segurança foi a primeira ação que fizemos neste ano, que culminou numa audiência pública na Câmara Legislativa. Daí, surgiu a ideia de criar um batalhão universitário, especializado no ambiente acadêmico. Criamos o mapa da criminalidade, que mostra essa questão, a segurança, mais próxima dos estudantes. Nós fizemos a campanha do papel higiênico e do sabonete, que deu certo por um período, mas nós sabemos que isso precisa mudar e ser permanente. É um ganho que tem que ser conquistado sempre ou então muda de vez o tratamento que a Prefeitura dá ao tema. A nossa meta é que não tenhamos que nos preocupar mais com isso e que o mínimo seja dado pela administração superior. Então, o balanço que eu faço é esse: mudamos, chegamos com uma mentalidade que precisava de amadurecimento e obtivemos esse ganho. Essa quebra que paradigma a que fazemos referência resultou não só na nossa vitória, como no nosso crescimento. Um crescimento, em número de eleitores, duas vezes maior, entre a primeira e a eleição mais recente.
Luiza Ramos -
O crescimento não foi só da nossa gestão, mas também da participação estudantil na Universidade. Durante a gestão tivemos os CEBs mais cheios, com 50 centros acadêmicos, algo que era muito difícil de acontecer. Tivemos um universo de votantes muito alto na última eleição. Nos debates que realizamos no Democracia 2.0 houve 2.700 pessoas votando, enquanto numa assembleia o recorde é de 2 mil. Nós buscamos trazer os estudantes mais para perto da política estudantil. Acho que aquilo que os motivou a buscar a participação foi ver que havia resultados e que eles estavam realmente sendo representados pela nossa gestão. Então, eu acho que não só a nossa gestão amadureceu, mas o estudante da UnB enxergou que pode realmente ajudar, colaborar para a melhoria da Universidade. Continuamos pautando a garantia das condições mínimas que os estudantes têm que ter para estudar: infraestrutura, segurança e pesquisa. As nossas prioridades sempre foram essas. Nós nos identificamos com elas porque são as principais falhas da UnB.

UnB Agência - O que a comunidade universitária pode esperar do segundo ano de gestão da Aliança pela Liberdade?
Nicolas Powidayko -
Em relação ao futuro, nosso objetivos se dividem em três pontos. O primeiro é consolidar as pautas que nós criamos durante a primeira gestão. Por exemplo, a questão que Pedro Ivo citou, do batalhão universitário. Temos que tirar isso do papel. Também queremos inaugurar o posto permanente do DFTrans para facilitar a emissão de passes livre. O segundo ponto é desenvolver projetos e atividades voltados para o dia a dia dos estudantes. Há burocracias e empecilhos que tornam a vivência acadêmica mais demorada ou problemática. Um exemplo que podemos citar é a instalação de um posto da Centro de Integração Empresa Escola (CIEE). Existe um no CEUB, outro na Universidade Católica de Brasília. Por que a UnB não tem? Queremos ser bem pragmáticos. Por que não tem? O que pode ser feito? Como vamos pautar isso? Precisamos também de mais linhas de ônibus. Queremos também agilizar a emissão de documentos acadêmicos online e também em inglês, além de modernizar a matrícula web. Sabemos que a Reitoria está passando por uma fase de mudanças e nós gostaríamos de pautá-las. Hoje, na UnB todas as gestões são feitas com muito papel. Isso irrita. Não é necessário que seja dessa forma. Em grandes universidades do Brasil como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a emissão desse tipo de documento é feita online. Você não precisa ir ao departamento para pegar uma matrícula de aluno regular. O nosso projeto de internacionalização é uma outra questão que queremos desenvolver. Para isso, queremos emitir documentos em inglês também. Não precisa ser um super-herói para isso. É só ter um pouco de vontade. É preciso que a Reitoria ou o Decanato de Ensino de Graduação (DEG) envie um ofício para que os colegiados traduzam as ementas das disciplinas. Não é um trabalho extremamente complicado. Isso beneficia muito o estudante. Não só aquele de classe mais alta, mas também o mais carente. Para traduzir os documentos necessários para participar de um dos intercâmbios que a Assessoria de Assuntos Internacionais (INT) organiza, é precisa gastar cerca de R$ 700. Isso prejudica a todos. Ainda mais os estudantes sem recursos, que vão para o intercâmbio com uma bolsa. A terceira linha são itens que queremos pautar para o movimento estudantil e a Universidade. A valorização das empresas juniores, dos Programas de Educação Tutorial (PETs), dos programas de extensão. Essas são iniciativas estudantis que precisam ser valorizadas. Na nossa concepção, essa é uma das nossas funções. Muitos desses projetos não recebem suporte dos professores da UnB. Não queremos interferir. Queremos facilitar a vida dos estudantes. Muitas vezes, um projeto de extensão precisa de recursos ou de certificados. Queremos fazer o máximo para facilitar esse processo. A Biblioteca 24 horas também é muito importante. Isso já foi uma realidade até um período recente da Universidade e por alguns motivos deixou de ser. É o momento de contornar esses problemas.  Se for falta de pessoal, isso pode ser resolvido com a segunda fase do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que contempla o aumento de servidores. Temos que pautar, nos conselhos e junto à reitoria, que parte desses servidores sejam destinados à biblioteca.
Luiza Ramos - Temos também que dar muita atenção aos estudantes com vulnerabilidade socioeconômica. Agora com a Lei das Cotas Sociais essa demanda deve aumentar. A UnB não tem uma casa do estudante funcional. O Restaurante Universitário esteve constantemente fechado durante o último ano. São questões importantes para esses estudantes. A alimentação e a moradia são o básico para eles estudarem. Temos que cobrar isso nos conselhos e na Reitoria para que sejam pensadas soluções.

UnB Agência - E a relação do DCE com os novos campi? Que papel eles tiveram na reeleição de vocês?
Pedro Ivo -
Nós tivemos uma participação muito expressiva no campus UnB Gama com mais de 86% dos votos. Mas, isso não quer dizer que vamos trabalhar somente para o Gama. Vamos buscar ouvir mais e tentar integrá-los ao máximo no movimento estudantil. Pretendemos trazer a realidade do movimento para os novos campi. Não queremos focar tudo no Darcy Ribeiro. Temos que pensar como fazer isso, mas é um preocupação que nós temos. Precisamos dialogar mais com os novos campi.
Nicolas Powidayko -
É nossa obrigação, que as nossas iniciativas cheguem aos novos campi. Por exemplo, o mapa da infraestrutura e da insalubridade. Isso precisa acontecer também nesses lugares. Nossas propostas têm que chegar a todos os estudantes da UnB, independente do curso ou do campus. O mesmo exercício de identificar os problemas e ver como podemos resolvê-los.

UnB Agência - Os parques tecnológicos foram tema de debates durante a campanha para o DCE. Como vocês pretendem lidar com esse assunto?
Pedro Ivo
- Esse é outro ponto essencial. A criação do parque tecnológico. Queremos pautar isto junto à Reitoria,  ao Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) e ao Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação (DPP). Até onde eu sei, já existe uma emenda parlamentar para criar esse parque e um pré-projeto. Se existe o dinheiro, o que falta para tirarmos isso do papel? Esse é o momento de mostrar que os estudantes querem esse parque tecnológico. Não é só uma iniciativa dos professores porque isso beneficia a todos. Queremos organizar seminários sobre o assunto junto ao CDT e cobrar da Reitoria que isso saia do papel.

UnB Agência - Como vocês lidam com os coletivos que fazem oposição a vocês?
Nicolas Powidayko -
No ano passado, nós estreamos no Executivo do movimento estudantil e no nosso primeiro contato tivemos uma recepção hostil. Tomamos posse com as pessoas gritando "Não! Não! Não, nos representam, não!". Então esse ano, foi um ano de maturidade, de conhecer as outras pessoas e entender como funciona o movimento estudantil. A gestão sempre trabalhou com o diálogo e a democracia, mas em certos momentos do passado, não nos sentimos confortáveis de ampliar o debate porque não os conhecíamos e porque eles haviam sido hostis conosco. Então, um ponto que queremos salientar, e eu disse isso no discurso de posse, é a questão do respeito e do diálogo. Eu disse, sem objetivos eleitorais, que eles têm as portas abertas para dialogar com todos os grupos. Queremos contribuir com outros aspectos e não somente as nossas pautas. Queremos ajudá-los e que eles nos ajudem. Tudo isso de forma respeitosa e republicana. Nós sabemos que há divergências dos nossos posicionamentos, mas o nosso compromisso com a UnB supera isso. Nós temos que trabalhar juntos. Nosso objetivo é ter um relacionamento, no mínimo, respeitoso e de dialogo com os outros grupos. Nos debatemos nossas divergências, mas depois vamos para um bar tomar cerveja juntos.

UnB Agência - Se vocês fizessem um exercício de autocrítica, que procedimentos tomados no último ano, vocês teriam evitado com a experiência que têm hoje?
Pedro Ivo -
Acho que uma autocrítica válida a ser feita e que era uma das propostas da campanha anterior foi a implantação do parlamentarismo. Nós tivemos muita dificuldade, tendo em vista ser necessário fazer uma reforma estatutária. Isso é algo muito complicado. Nós sabíamos das dificuldades, mas não tínhamos dimensão do que poderia ser feito na prática para tirar aquele projeto do papel. Observe que as assembleias gerais mal conseguem tem 600 pessoas num quorum mínimo de pouco mais de mil pessoas. Talvez uma assembleia com essa responsabilidade de mudar o estatuto, que é a forma como esses diretórios se organizam, pudesse produzir uma representação ativa. O Democracia 2.0 pretende sanar esse problema depois que percebemos as dificuldades de implementar o parlamentarismo. Assim, podemos fazer votações via internet, com a garantia de que somente participam estudantes da UnB porque é preciso de número de matrícula e senha. Ouvimos a opinião dos estudantes por esse meio.
Nicolas Powidayko -
Fazendo esse exercício de autocrítica, nós elaboramos uma nota, enquanto gestão, que era contrária à greve por diversos motivos. Não falamos em nome do DCE ou em nome dos estudantes. Eu fui um dos defensores da publicação da nota na época. Mas hoje, acho que não deveríamos ter feito aquilo. Poderia ser a nossa opinião e não seria teoricamente errado emitir essa nota. O problema é que não conhecíamos a opinião dos estudantes. Ao final da greve, quando usamos o democracia 2.0, nós tivemos o conhecimento. Mesmo tendo as nossas opiniões nós temos que ter informações suficientes. Não falamos pelo eleitor, pelo estudante abstrato. Nós falamos pelos estudantes da Universidade de Brasília. Para tomarmos as nossas decisões, sejam elas quais forem, é preciso ter informações.