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Relato de historiadora marca última reunião de 2012

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Professora Geralda Dias conta sua trajetória para Comissão UnB 50 Anos.

publicado também em: www.unb.br

 “Mais do que professores, vocês devem ser historiadores”, ouvia de seus mestres a então estudante da UFMG, Geralda Dias Aparecida. A docente aposentada da Universidade de Brasília compartilhou parte de suas vivências na reunião da Comissão UnB 50 Anos realizada nesta segunda-feira (17).

Nascida na zona rural de Minas Gerais, Geralda conheceu Brasília pela primeira vez no ano da inauguração da cidade. “Vim numa excursão do colégio de freiras”, lembra. A paixão pela capital, no entanto, surgiu mesmo sete anos depois, quando trabalhou na organização do primeiro Congresso Nacional de Geografia e História coordenado pelo pioneiro Ernesto Silva.

“A criação da UnB era uma novidade que todos queríamos conhecer”, recorda. “Ouvíamos falar muito bem da universidade, tanto da proposta revolucionária de educação, como das condições de estudo e moradia”, afirma.

Geralda se formou em história em dezembro de 67. Em março de 68 regressou ao Distrito Federal, para começar sua carreira como professora em Taguatinga, pela Fundação Educacional. Paralelamente, iniciou seu mestrado em Cultura Brasileira na UnB.

“No meu primeiro semestre, a convivência entre os estudantes era intensa. Muitos viviam nos alojamentos estudantis”, conta. “O alojamento em que eu morava foi fruto de ocupação. O Brasília Palace Hotel tinha um anexo formado por quatro prédios baixinhos, que foram construídos  para receber o pessoal na inauguração da cidade. Eu morava lá com duas estudantes de Medicina”, diz.

A então estudante de mestrado e professora da Fundação Educacional acompanhava a movimentação cultural do período. “Havia atividades  teatrais, fotografia. Todo mundo saía pelo campus tirando fotos. Existiam as festas na Colina. Tudo isso aproximava muito. Já que não havia  uma grande vida social fora daqui, alunos e professores aproveitavam a universidade para se integrar”, recorda.

Geralda não terminou seu curso, que foi fechado pela intervenção militar. A presença da polícia passou a ser uma constante na Universidade.  “Eu vi tudo. Em 68, o movimento estudantil se fortaleceu e a polícia apareceu por aqui algumas vezes”, relembra. “A grande crise foi em agosto. A UnB foi cercada pela polícia. A primeira parte da invasão foi nos alojamentos. Eles prenderam um monte de alunos na quadra de basquete perto dos SGs. Depois disso, invadiram o Minhocão”, conclui.

Geralda retornaria à UnB em 1972, desta vez como professora. No ano seguinte, partiu para o México para fazer seu doutorado. Dos nove anos que esteve lá, cinco foram como professora na Universidade Autônoma Metropolitana (UAM).

Com a redemocratização da UnB em 1985 e por insistência da professora Adalgisa Maria Vieira do Rosário, sua amiga desde 1962, Geralda  retornou à Brasília. Era 1986 e ela recebeu uma missão muito especial: desenvolver pesquisa que embasasse o processo de reintegração dos professores demitidos nos anos de ditadura militar.

“Foram mais de duzentos processos, em cinco anos de pesquisa”, relata. Uma das dificuldades enfrentadas pela pesquisadora foi a ausência de um arquivo central. “Com apoio da reitoria, pesquisei em arquivos de jornais e outras fontes para ter o quadro completo”. Até o início de 1966 um total de 221 professores haviam sido demitidos pelas forças repressoras, ou se demitiram em solidariedade aos colegas.

O trabalho de pesquisa realizado no período de redemocratização da UnB colaborou para o desenvolvimento do Projeto de Memória do  Movimento Estudantil (Promemeu), coordenado pela professora Adalgisa do Rosário. Este, por sua vez, desembocou na criação do CEDOC (Centro de Documentação) da UnB.

Ao longo de sua carreira na UnB, Geralda também coordenou a pós-graduação do curso de História, onde lecionou disciplinas voltadas para a América Latina, e orientou teses e dissertações. A aposentadoria, em 2003, não a afastou da Universidade.

Entre 2004 e 2009, dirigiu a Casa da Cultura da América Latina. “Parece que tem um barro aqui que segura o meu pé”, brinca. “Na verdade,  acho que é minha cabeça-dura, voltada para preservar a memória da Universidade”. A professora Geralda iniciou o Projeto Estratégico Institucional Pró-Memória em 2009. A iniciativa promove atividades de ensino, pesquisa e extensão para promoção do patrimônio da UnB.

LIVRO e DOCUMENTÁRIOS.

Além de acompanhar o depoimento da professora Geralda Dias, a Comissão UnB 50 Anos apreciou e aprovou o pedido de inclusão do livro “Reconstrução de Uma Ideia” como uma das obras de celebração do Jubileu da UnB. A publicação, elaborada por Maria Amélia Rossi, é  dedicada a memória de Aloísio Magalhães, pioneiro do design no Brasil e responsável pela implementação de dezenas de programas de identidade visual em instituições públicas e privadas, nas décadas de 60 e 70, dentre ela a marca da Universidade de Brasília.

Trechos de dois documentários produzidos com apoio da Chamada Pública UnB 50 Anos foram exibidos na reunião desta segunda-feira.  Realizado pelo CEDOC e pela UnBTV, “Promemeu” retrata o trabalho de preservação da memória do Projeto Memória do Movimento Estudantil da UnB e o contexto onde ele se desenvolveu, nos anos de 1980.

O professor e antropólogo Roque Laraira é o foco do filme realizado pelo Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais (IRIS) do  Departamento de Antropologia. Pedro Branco, responsável pela edição do documentário, explicou que está cuidando dos últimos ajustes técnicos do filme e que em breve o vídeo será exibido para a comunidade acadêmica.

Na reunião, a Comissão também aprovou a proposta do professor Remi Castioni (FE) de que a UnB consulte o Congresso Nacional sobre as possibilidades de inclusão de Anisio Teixeira e Darcy Ribeiro como patronos da educação brasileira.

FUTURO DA UnB. Em sua fala, o reitor Ivan Camargo sugeriu que a próxima etapa das comemorações do cinquentenário da Universidade de Brasília tenha como foco a reflexão sobre os próximos 50 anos da instituição. “Esta é uma provocação sugerida pelo senador e ex-reitor da UnB Cristovam Buarque da qual eu participo e gostaria de estender a toda comunidade”, afirmou.

A Comissão UnB 50 Anos está planejando, para abril de 2013, a realização de debates sobre o futuro da UnB. O reitor informou ainda que em  breve serão criados grupo de trabalho para cuidar do projeto de expansão da UnBTV para canal aberto digital e comissão para debater a gestão da informação, comunicação, documentação e memória da UnB. Ao encerrar sua fala, Ivan Camargo desejou a todos um ano novo cheio de projetos e realizações.