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Niemeyer, poeta do concreto

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Escrito por Luciana Barreto

O ícone da arquitetura moderna falece aos 104 anos. Ao lado de Darcy Ribeiro e de Anísio Teixeira, ele compõe o tripé fundador da Universidade de Brasília


Fonte: UnB Agência
Fotos: Reprodução/ UnB Agência

Seus traços sinuosos desafiaram ortodoxias, venceram o concreto; agregaram poesia à arquitetura. A forma livre que surge nos riscos dos croquis, as geometrias depuradas e vertidas em esculturas-monumentos revolucionaram a paisagem urbana brasileira. Oscar Niemeyer (1907–2012) ensinou ao mundo que a beleza é leve. Morreu na noite dessa quarta-feira, 5, de complicações renais e infecção respiratória um dos inventores da arquitetura moderna. Estava internado há 33 dias no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. O corpo será velado no Palácio do Planalto, nesta quinta-feira, e enterrado no Rio de Janeiro, na sexta. O arquiteto completaria 105 anos no dia 15 de dezembro.

Reconhecido internacionalmente por suas obras, o gênio modernista compõe, ao lado de Darcy Ribeiro e de Anísio Teixeira, o tripé fundador da Universidade de Brasília. O uso inventivo das curvas de concreto armado e seus projetos de grande ousado e significação, como a nova capital federal, credenciaram Niemeyer como o mais premiado e reconhecido criador de formas na Arquitetura. Lúcido e ativo até os seus últimos dias de vida, não deixou de ditar ideias e gestar projetos nem mesmo durante suas recorrentes internações hospitalares. Sua impressionante longevidade deriva de uma força criativa ímpar, expressa em uma galeria de trabalhos célebres em todo mundo, percurso iniciado em 1937, com a chamada Obra do Berço, no bairro da Lagoa, Rio de Janeiro. Com pilotis, plantas e fachadas livres, já demonstrava a influência do arquiteto francês Le Corbusier – com o qual teve a oportunidade de trabalhar um ano antes, quando este esteve no Brasil.

INATINGÍVEL – Cláudio Queiroz, professor de Arquitetura da UnB, foi um interlocutor privilegiado, um contribuidor exemplar, um seguidor confesso do mestre das curvas. Trabalhou como assistente de Oscar Niemeyer na Argélia por nove anos, de 1973 a 1984, mantendo ao longo dos anos colaborações sistemáticas com ele. “É o arquiteto que construiu a obra mais diversa em toda a história da civilização humana, com sua presença inscrita em todos os continentes”, afirma Cláudio, complementando que, apesar da diversidade, a principal característica de sua arte é a unidade, “já que é possível reconhecer uma obra sua em qualquer canto do mundo, a partir das suas singularíssimas curvas, traços, movimentos”.

“Em suas obras há uma espécie de arquetipia, uma arché – palavra grega que significa princípio, origem – ou seja, algo que precede e transcende a própria concepção da arquitetura, essa arte de transformar a natureza em morada humana”. Para Queiroz, Niemeyer faz isso conjugando a uma visão de mundo universal outra contextual, em que considera os elementos culturais e inspirações locais. “Ele celebra nosso cosmopolitismo de modo formidável”.

“As colunas criadas por Niemeyer, a exemplo do Palácio Alvorada, são os feitos arquitetônicos mais importantes desde as colunas gregas, o primeiro grande tratado do Ocidente”, afirma, endossando as considerações do intelectual e escritor francês André Malraux. De acordo com Cláudio, “as nossas colunas configuram o direito de um povo cosmopolita representado em suas formas, volumes, espaços”.

INFLUÊNCIAS – Para José Carlos Córdova Coutinho, arquiteto e professor emérito da UnB, “seu verdadeiro e extraordinário talento brotou no projeto do Ministério da Educação e Saúde, no qual, trabalhando como estagiário no escritório do urbanista Lúcio Costa, pôde conviver intensamente com Corbusier, sugando tudo do mestre. Sua contribuição pode ser notada na leveza das formas, uma certa feição acariocada impressa na edificação”. Outro episódio contado por Coutinho foi quando, ainda jovem, em Porto Alegre, participou de um livro temático sobre Lúcio Costa. Ao mostrar para ele seu texto, Costa riscou justamente o trecho no qual dizia que seu escritório “já teria valido a pena somente por revelar o talento de Niemeyer”. A correção veio quando declarou que isso não era verdade, “pois o talento de Oscar foi adquirido, trabalhado, construído”.

“Se Niemeyer logrou criar um modernismo plasticamente livre e ricamente escultural, que explorava a composição e as implicações poéticas do ambiente tropical, isso se deve à sua atenta observação dos discursos formais e teóricos de Le Corbusier”. A constatação é do norte-americano David Underwood, autor do livro Oscar Niemeyer e o Modernismo de Formas Livres no Brasil.
 
“Foi o conjunto arquitetônico da Pampulha, concluído em 1943, na ocasião em que conheceu Juscelino Kubitschek, à época prefeito de Belo Horizonte, que lhe conferiu projeção internacional”, diz Coutinho. Idealizada e concebida ao lado de outros mestres modernistas, como o pintor Cândido Portinari e o paisagista Roberto Burle Marx, a Igreja São Francisco de Assis – e seu inusitado jogo de retas e curvas – notabilizou, em definitivo, o arquiteto, marcando todo o seu fazer artístico, constituindo, como considera o professor, “sua grande obra fundadora”.

JK – O impulso utópico dado por Juscelino assumiu forma nas pranchetas e concepções de Niemeyer, quando foi convidado a vir para nova capital federal integrar o júri do concurso para o Plano Diretor de Brasília, decidindo por seu mentor Lúcio Costa. Incumbido das obras em Brasília, Niemeyer teve carta branca para criação dos principais monumentos e edifícios governamentais da cidade e o deliberado uso do que chamava de “metáfora do voo”, buscando enfatizar uma mágica ausência de peso, que teria como objetivo simbolizar o incipiente progresso nacional brasileiro na nova capital, e a justaposição deliberada dos objetos e convenções do cotidiano ao extraordinário e o maravilhoso – conforme explica David Underwood. “As mágicas estruturas de Brasília refletem a rebeldia de Niemeyer contra normas estruturais, bem como seu interesse em criar novas formas, de rico efeito escultural”, complementa.

“Niemeyer é indiscutivelmente a grande referência da arquitetura brasileira, está acima de qualquer crítica. Embora não seja perfeita, é uma obra soberba”, avalia Coutinho. Conforme o professor, o mestre nunca se propôs a ser funcionalista, “mas sempre perseguiu, confessadamente, surpresa, emoção, encantamento. Sua obra é espetacular,  pois entende a arquitetura como espetáculo”. Para ele, Niemeyer está no panteão da cultura brasileira, não só da arquitetura, ao lado de nomes como Portinari, Carlos Drummond de Andrade que marcaram indelevelmente uma época.

ELEGÂNCIA DA SIMPLICIDADE – Em concordância com o professor José Carlos Coutinho, Cláudio Queiroz também considera o Niemeyer “a maior expressão de cultura brasileira no mundo, ultrapassando até mesmo o Pelé, nosso grande ícone”. “Além de tudo, seu compromisso com os povos, a utopia social, a transformação real da sociedade faz dele um admirável, generoso e solidário homem, uma pessoa que prima pela elegância da simplicidade”, declara.

Quanto à inigualável grandiosidade da sua obra, seu amigo, assistente e colaborador confessa o que acomete todo e qualquer arquiteto no mundo: a medida de suas próprias limitações, já que Niemeyer é  - e sempre será – “um inspirador inatingível”. Linhas, que se movimentam em curvas, traços que forjam graciosos, suspensos microcosmos da natureza, poéticas invenções que, certamente, ultrapassam épocas, espaços e gerações e se confundem com o infinito.

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