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Da ideia ao traço de Oscar Niemeyer (In Memorian) 1907 - 2012

Categoria: noticias

foto de capa: Darcy e Niemeyer  (Jornal do Brasil)
texto original disponível em PDF.

O arquiteto Oscar Niemeyer, que ajudou a projetar Brasília e a conceber os primeiros traços da UnB, morreu na noite desta quarta-feira (5), aos 104 anos, com complicações de saúde.

Em homenagem ao arquiteto, sonhador e professor Oscar Niemeyer, o portal UnB50Anos reproduz uma reportagem especial produzida para a DARCY (Revista de Jornalismo Científico e Cultural da Universidade de Brasília).

Conheça na matéria como Niemeyer concebeu inicialmente a UnB a partir de traços febris e inovadores para a época. Niemeyer fez parte do grupo de professores que pediu demissão da UnB em 1965 durante o regime militar. Apesar disso, as ideias do arquiteto permaneceram e permanecem presentes tanto na UnB projetada e ainda almejada, quanto na UnB possível e atual. Confira:


DA IDEIA AO TRAÇO DO PROFESSOR NIEMEYER

Ele desenhou a UnB que jamais saiu do papel.
Conheça o febril processo criativo de um dos mestres da arquitetura mundial


por João Campos, da DARCY

O pai dos principais monumentos da capital do Brasil não gosta de lembrar da temporada em que foi professor da UnB, nos anos 1960. A passagem de Oscar Niemeyer pelo campus terminou amarga. Ele traçava planos para a instituição inovadora. Em um galpão, ensinava estudantes de arquitetura a transformar sonhos em concreto. Até que, em 1965, em protesto contra o regime militar, 223 docentes pediram demissão. Oscar estava na lista. Foi embora e deixou no papel o seu principal projeto para a universidade.

A Praça Maior criada pelo poeta do traço seria a essência da UnB. Com quatro grandes prédios, foi idealizada para preencher o vazio que se descortinava entre o principal bloco do espaço acadêmico, o Instituto Central de Ciências (ICC), e o Lago Paranoá.

A condenação dos desenhos à prisão do papel é uma das marcas que o gênio não conseguiu apagar de suas memórias da ditadura. “Foi uma agressão sem precedentes à minha obra”, confessa o senhor de 102 anos, recém recuperado de um grave problema de saúde, no Rio de Janeiro.

Nesta edição, a revista DARCY apresenta a coleção de desenhos de Niemeyer paraa Praça Maior. O conjunto de 11 croquis e 50 esboços permaneceu longe dos olhos do público por quase meio século. Os registros em papel manteiga revelam o processo de criação do gênio da arquitetura mundial. Mostram o labirinto de ideias que antecedem a decisão pela melhor saída arquitetônica.

“Dá para saber exatamente o que ele estava imaginando. Como o embrião surgiu e
o modo como evoluiu na gestação da ideia”, afirma Cláudio Queiroz, amigo de Niemeyer e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB. Durante 20 anos, ele fez parte da equipe do arquiteto carioca.

OS CAMINHOS DA CRIATIVIDADE

No princípio da década de 1960, Oscar Niemeyer esteve diversas vezes no terreno onde seriam erguidos, harmonicamente, o Museu de Ciência e tecnologia, o grande auditório batizado de Aula Magna, a Biblioteca Central e a Reitoria.

“Oscar desenhava com as mãos antes de pegar o lápis. Ali, olhos apertados, ele traçou, no ar, o formato de cada peça do conjunto que considerava sua principal contribuição para a UnB. Buscava o lugar ideal para cada uma de suas crias”, comenta Cláudio, que o acompanhou em diversos projetos pelo mundo.

Com o mapa do terreno em mente, o arquiteto dava início à enxurrada de elucubrações em busca da perfeição. Sobre rolos de papel, dava forma aos desenhos aéreos de outrora. Arriscava. Mudava os blocos de posição. Jogava com o tamanho dos prédios. Simulava a interação dos visitantes com sua obra.

Detalhes, como a economia de pilastras no pilotis, expõem a evolução dos esboços a cada croqui. Riscos em “x” indicam a negação das tentativas de alcançar a forma final.

Pelos detalhes dos esboços guardados pelo Centro de Documentação da UnB, Cláudio estima o empenho do amigo. “Esses desenhos são a ponta de um iceberg, mas se aproximam do resultado final. Sem dúvida, vieram muitos antes”. tudo indicava que a Praça Maior estava prestes a ser erguida. Mas por força do golpe que trocou João Goulart por Castelo Branco, em 1964, o projeto ficou inacabado. E a Praça Maior caiu no esquecimento.

DO PANAMÁ PARA A UnB

Era 1961 quando as histórias de Niemeyer e da UnB se entrelaçaram. Na época, o presidente Juscelino Kubitschek pediu ao amigo Oscar que traçasse um campus que acompanhasse as linhas modernistas da cidade. Niemeyer topou, criou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e virou professor. Ali, dava aulas de um jeito diferente. Fazia dos canteiros de obra sua sala de aula e seu laboratório. Riscou e viu ser erguido o ICC e os prédios de Serviços Gerais (SGs). Mas faltava algo no cimento que, pouco a pouco, ganhava forma.

O arquiteto das curvas queria uma obra que representasse a magnitude da instituição pensada por seus companheiros Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Buscava o traçado de um espaço amplo, que reunisse a ciência, a cultura, a memória e a administração da universidade de forma sutil e imponente.

Na imaginação do arquiteto, não a UnB teria apenas um campus. Oscar defendia uma cidade do conhecimento – a Cidade Universitária de Brasília (CUB), nome que gravou em boa parte dos croquis da época. Surgiram, então, os primeiros esboços da Praça Maior. Era 1962. Os desenhos apresentam a composição entre quatro grandes blocos. No meio dos colossos, haveria um amplo espaço vazio. Seria possível ver todos os prédios e o horizonte de azul singular do Cerrado. O Plano Diretor da UnB, de 1962, anuncia “a grandiosidade e a beleza da obra arquitetônica a ser brevemente empreendida”. Sonho interrompido pela entrada dos militares no campus.

O responsável por resguardar os papéis com os desenhos de Oscar foi o arquiteto panamenho Virgílio Sosa, colega dele na época. A dupla chegou a apresentar os rascunhos ao antropólogo Darcy Ribeiro, primeiro reitor da UnB. Por 36 anos, a coleção de desenhos enfeitou a parede no escritório de Sosa, na Cidade do Panamá, capital do país.

Em 2001, o projeto voltou para casa. Foi entregue pela presidenta do Panamá, Mireya Moscoso, ao então reitor da UnB, Lauro Mohry. Mas já era tarde. O local reservado à Praça havia sido ocupado. “Do exílio no exterior, Niemeyer viu a UnB se desenvolver sem sua presença. Por isso tamanha mágoa em relação ao assunto”, comenta Luiz Otávio Barreto, assessor do arquiteto, ao justificar o incômodo de Oscar.

O CAMINHO DA DESCOBERTA

Boa parte das coisas boas surge quando menos se espera. No jornalismo, não é diferente. Aquele 8 de outubro seria mais um dia de trabalho. Faria uma reportagem sobre as obras de Niemeyer no campus. São 12. Mas o caminho da apuração sobre o legado do gênio, na universidade, mudaria drasticamente
o rumo da matéria.

A caminhada pelos rastros de Niemeyer era certa. Do Centro de Planejamento da UnB, primeira obra de Oscar na instituição que leva o nome do seu autor, segui para o Centro de Documentação. “O que vocês guardam sobre Niemeyer?”, perguntei à historiadora Goretti Vulcão. “temos o Plano Diretor e fotos”, disse ela. “E também uns croquis antigos lá embaixo”, completou. Era a senha. Desci para ver os desenhos.

Ao abrir a gaveta com os 11 papéis amarelados, percebi que não eram simples esboços. Não me recordava de ver aquelas formas no campus. “De quando são?”, indaguei. “1962”, respondeu Goretti. “É um projeto que não saiu do papel, escondido por muito tempo”, emendou. A história estava ali pronta para ser contada. Ao comentar a descoberta com os colegas de redação, decretamos: é um tesouro, será a capa da DARCY.

O GRANDE CINEMA - Os primeiros esboços da Praça Maior são sinais da indecisão de Niemeyer. Ele já tinha ideia de onde ficariam os quatro blocos – Museu ao fundo, Biblioteca à direita, Aula Magna à esquerda e a Reitoria, em destaque, à frente – como mostra o desenho de cima. O arquiteto ainda não estava certo sobre a forma definitiva de cada prédio. “Prova disso são os experimentos com o auditório nos quatro esboços”, comenta o professor de Arquitetura Cláudio Queiroz, companheiro de Niemeyer em diversos projetos pelo mundo. Nesse croqui, Oscar opta pela Aula Magna em forma de leque, mas ainda não está convencido do local onde colocaria a entrada e como cobriria a obra. O arquiteto arrisca colocar uma grande parede em frente ao auditório.

ESPECULAÇÕES SOBRE A AULA MAGNA - Esse esboço é o primeiro mergulho no interior do grande auditório, chamado de Aula Magna. Niemeyer traça o bloco com dois andares. O desenho da direita mostra o térreo, onde haveria um grande hall para exposições na entrada (parte mais estreita do ‘leque’). As pequenas anotações feitas ao redor do esboço apontam, por exemplo, os lugares para delegações em grandes conferências e para a bilheteria. Niemeyer se preocupava com a acessibilidade e queria garantir eficiência na circulação do público. “No desenho central, ele traça o segundo piso, onde ficaria o auditório em si. Os três retângulos que se repetem no fundo de cada desenho (têm um traço no meio) são as rampas que ligariam os andares”, traduz Cláudio.

NOS BASTIDORES DO MUSEU - Nesse croqui, Oscar faz quatro experimentos para o Museu. Eles detalham o interior da obra que ficaria paralela ao Instituto Central de Ciências da UnB, famoso Minhocão. O arquiteto risca com um “x” a versão do bloco com quatro pavimentos, desistindo da ideia. No canto superior direito, uma vista lateral mostra o interior do prédio, sustentado por quatro colunas, duas em cada extremidade. Ele simula a circulação de pessoas pelo Museu. Dentro, ele traçou rampas que fariam a conexão entre os pavimentos. Os dois esboços paralelos mostram ainda duas visões distintas do bloco. No último, Oscar coloca árvores perto do edifício e opta por oito pilares de sustentação, número que diminuiria depois. A sigla CUB no alto dos croquis significa Cidade Universitária de Brasília, forma como a UnB era chamada durante a sua criação na principiada década de 1960.


PERTO DA PERFEIÇÃO - Niemeyer traça versões aprimoradas da Aula Magna. Na parte inferior do esboço, o comunista declara sua preferência pelo formato sinuoso para a cobertura do bloco, inspirado nas tendas árabes. Os desenhos em forma de leque mostram pormenores do interior do auditório. À direita, os pequenos pontos pretos simulam a movimentação de visitantes. O esboço define duas entradas para o bloco: uma principal e outra nos fundos. Os traços retos no hall de exposições sugerem a presença de grandes painéis artísticos. No esboço da esquerda, a rampa externa dá acesso à marquise do segundo piso. Pode-se fazer uma analogia entre essa opção e o projeto da rampa do Congresso.

MOMENTO ÍNTIMO - O processo criativo do grande mestre inclui momentos de intimidade com a família. Os desenhos, sem muitos detalhes, mostram esboços individuais do arquiteto para o Museu, a Biblioteca, a Aula Magna e a Reitoria. Ele agrupa os quatro blocos e revela a composição final da Praça Maior, já com o local definitivo de cada edifício. Cláudio Queiroz arrisca uma explicação inusitada para os rabiscos que preenchem algumas das formas traçadas pelo gênio. “Oscar costumava desenhar na presença dos netos. Parece que, nestes esboços, os meninos aproveitaram para pintar os traços do avô”, conta.


A PRAÇA DOS SONHOS - As duas perspectivas apresentadas nesses esboços demonstram o projeto da Praça Maior em fase avançada. A evolução é representada pela presença de apenas quatro pilares no pilotis do Museu (antes eram oito). A economia mostra a genialidade de Niemeyer na busca pelo equilíbrio. As imensas vigas das paredes são sutilmente sustentadas por pilastras. Nesse croqui, é possível ver o destaque dado ao prédio da Reitoria, o único vertical e separado dos demais por ser um bloco de escritórios. A maior visibilidade dada ao edifício indica a responsabilidade da administração pública. Os blocos do “conhecimento” ficariam unidos entre si, abrindo espaço para que os visitantes vissem o céu de azul singular da capital.


OLHAR DE VISITANTE - Niemeyer imaginava que a Praça Maior seriaum grande cartão de visitas da universidade. Definidas as formas e os lugares da cada bloco, o arquiteto brinca com a disposição dos prédios para simular a visão dos visitantes que chegam à UnB pelo Lago Paranoá. Os olhos desenhados nos esboços da direita sugerem duas vistas diferentes. No esboço de cima, Oscar dá ao Museu o papel de portal da praça que viria em seguida. Os números riscados indicam a ordem em que os edifícios saltariam à vista dos visitantes. Mas, seja qual for o ângulo, quem chegasse teria um panorama total da praça. Nos desenhos da esquerda, Oscar simula os caminhos a serem percorridos pelas pessoas na Praça Maior, o espaço mais generoso da UnB.


JOGO DE VOLUMES - O arquiteto estava em dúvida. Um dos desenhos mostra a Reitoria com 12 pavimentos, a Biblioteca com quatro e o Museu com dois. No outro, o arquiteto amplia o número de andares da Reitoria para 15, diminui a Biblioteca para três e coloca o Museu sobre pilotis.


NAS SALAS DA REITORIA - O tamanho das salas preocupa Niemeyer. Em um esboço, ele opta por um corredor de 2m de largura separando o conjunto de salas, que teriam entre 4m e 5m de largura. Ao lado, o “x” nega a versão das salas com 7m. O arquiteto aponta ainda a necessidade de três elevadores e uma escada de serviço para o bloco.

obs.: reportagem e fotos da Darcy reproduzida em postagem no Blog do Noblat.