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Helival Rios: as primeiras moradias estudantis

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Helival Rios

Estimulado pelas crônicas divulgadas no site,  o jornalista Helival Rios resolveu deixar registradas suas memórias dos primeiros anos de alojamento estudantil na UnB.

 Tenho também muitas lembranças daqueles tempos. Numa dessas varreduras por material dito “subversivo”, levaram todos os meus livros não didáticos: livros de Lênin, Trotsky, Marx, Engels, "O Manifesto do Partido Comunista" e biografias de Che e de Fidel. Mas o incrível é que não levaram "O capital", de Marx. Acharam que era coisa "boa", devia falar sobre dinheiro.

No C.O. velho, a turma era muito animada. Havia vários casarões. O primeiro era ocupado por um casal e um dos cônjuges era o nosso Joaquim Jodele, que tinha vários filhos (acho que uns quatro). Eu ocupava um dos quartos do último casarão, mais próximo do lago.

Helival RiosO casarão, ou barracão, como queira chamar, pois era de madeira, muito simples e todos tinham o mesmo padrão: um corredor longo, com quartos à direita e à esquerda, e no fundo um banheiro comum. Os quartos eram pequenos, com duas camas, divididas por uma mesinha de estudos encostada à janela. Em frente à janela, havia um grande guarda-roupas que ia da porta até o final da parede.

Em cima do guarda-roupas havia um espaço grande. Ali era colocado um colchão para abrigarmos um "clandestino". Todo quarto tinha um clandestino. Era uma pessoa que tinha um amigo no quarto, mas que não conseguira passar pela peneira da burocracia para ganhar oficialmente um alojamento na Universidade. Então vinha a ser o terceiro inquilino, "sem que a Universidade soubesse" (deviam saber, é claro).

O clandestino do meu quarto era o "Malandro", José Carlos, que fazia Pedagogia. Eu fazia Comunicação (Jornalismo) e o outro efetivo do quarto, o grande Erodício, de Porto Nacional, fazia Medicina. Entre os meus vizinhos havia três mais chegados a nós, todos do interior de São Paulo, e todos cursando Engenharia Elétrica. Acompanhavam-nos nas "cantatas" de violão.

Em frente ao meu quarto havia um cara engraçado que a gente chamava de "João Nu". Isso porque, tão logo ele chegava ao nosso barraco, a pé ou no ônibus, ia logo tirando a roupa. E transitava completamente pelado pelos corredores até o banheiro. Salvo engano, ele era clandestino daquele quarto, e costumava levar uma namoradinha para lá. Só que ela era muito escandalosa: gemia e gritava muito alto na hora do rola-rola. E quando ela fazia isso, e o fazia sempre, todo o mundo dormia mal. Mas tudo era levado na maior esportiva. Queixas? Nem pensar!

Lembro-me que quando o ônibus chegava de manhã cedo, era uma correria louca pelos dormitórios, porque o motorista tinha ordem de não esperar. Quem não conseguia pegar o ônibus tinha de ir a pé até o Minhocão, e provavelmente chegaria atrasado na primeira aula. Por isso, tão logo o ônibus parava no primeiro barraco, os mais diligentes saiam andando pelo corredor, batendo nas portas dos quartos e gritando: "Acorda putada!  Acorda putada!".  

Era comum entrar gente no ônibus terminando de se arrumar, vestindo a camisa, calçando os sapatos e coisas assim. E vinham desde o quarto aos berros de "Segura! Segura!" pedindo para os colegas não deixarem o motorista partir. Mas não tinha conversa. Ele ficava parado alguns segundos e logo zarpava.  

No trajeto do ônibus do CO velho até o Minhocão era uma festa. Alguém sempre puxava uma música. Uma das mais cantadas foi uma paródia de "Eu te Amo Meu Brasil" que fiz e que tive de distribuir a letra para todo o mundo cantar, tamanho o sucesso (risos).  

Dizia assim: "Maconha no Brasil foi liberada, lá,lá lá lá   / Agora é que o Gigante despertou/ Em se plantando tudo dá/ Eu vou plantar maconha lá no Ceará/ Getúlio ordenou plantar batatas lá la la la/ Castelo (referindo-se ao presidente Humberto de Alencar Castelo Branco) só plantou mandacaru/ E pra esquecer tanta desgraça/ Vamos plantar erva com Garrastazu!”  (Emílio Garrastazu Médici). Aí entrava o estribilho: "A maconha no Brasil, a maconha/ Vai acabar com essa falta de vergonha, olhaí/ A maconha, no Brasil, a maconha, /vai acabar com essa falta de vergonha”.  

E a segunda estrofe: "Eu moro num país abençoado, lá lá lá lá,/ A terra de Chacrinha e rei Pelé/ O velho entra na bolinha/ E o outro otário vai vender café" (é que diziam que o Abelardo Barbosa tomava "bolinhas" (estimulantes) antes dos programas; e Pelé começou a ser usado em publicidade oficial para vender mais café do Brasil no exterior). E continuava: "A Maconha, no Brasil, a maconha...", etc.

Dos tipos “estranhos” que moravam no CO velho havia um muito conhecido, o "Polanski", que fazia Engenharia Elétrica. Creio que não conseguiu terminar o curso, porque não estudava nada e tirava notas horríveis. E vivia pedindo dinheiro a um e a outro para inteirar o "boião". Ele nunca tinha dinheiro. E olhe que éramos todos muito duros. Tanto que, muitas vezes, no final de semana, eu tinha dinheiro somente para o ingresso do Cine Brasília e para mais uma passagem de ônibus. Então, ia de ônibus até a Rodoviária e de lá ia andando até o Cine Brasília e assistia ao filme. Depois voltava à noite à pé para o CO.  Uma ótima caminhada! Mas Brasília era uma cidade segura, sem violência, quase.

Nas férias, quem tinha dinheiro para ir pra casa dos pais ia. Quem não tinha, como eu, ficava lá pelo C.O. mesmo. Mas aí era meio deprê. Porque ficava muito pouca gente, quase ninguém. E o silêncio era ensurdecedor! Em geral no meu alojamento eu ficava sozinho. E é bom lembrar que não tínhamos televisão. Não havia o que fazer a não ser ler um bom livro. E também não havia grana para ir a algum lugar. Mas o pior de tudo era quando o Bandejão (RU) fechava. Aí, meu amigo, era uma fome retada!

Quando nos mudamos do CO velho para o novo, um lindo bloco de alvenaria, a sensação é que havíamos entrado no céu! Fui para o apartamento 210. Ao lado dos apartamentos havia um conjunto esportivo com quadras e piscinas! Foi nessa época que começou uma disputa enorme para trabalhar nas piscinas. Porque a gente trabalhava de sunga, correndo o aspirador pelas piscinas, em vez de ficar na burocracia ou servindo no Bandejão.  

E quando passei no Vestibular (para Humanidades. E poderia escolher qualquer curso nesse imenso bloco) era funcionário da Engenharia Civil da UnB. Aí me chamaram nos Recursos Humanos e mandaram escolher: “ou estudante, ou funcionário. Não pode ser os dois”. Então optei por ser estudante e perdi meu emprego de escriturário datilógrafo, no qual havia ingressado por concurso público!  

E passei a trabalhar meio expediente no mesmo lugar onde trabalhava, só que ganhando um oitavo do que ganhava. Como diria o Super, "comigo foi assim". São tantas histórias...