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Eduardo Medistch e os primeiros anos da Colina

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Leyberson Pedrosa

“Lembro-me de brincar entre as obras da UnB”, relata o professor de jornalismo da UFSC, Eduardo Meditsch, que viveu 2 anos de sua infância na Colina entre 1964 e 1965.

O professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Eduardo Meditsch, possui uma longa trajetória como jornalista em rádios, jornais e tevê no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Mas Meditsch também traz, em sua bagagem, lembranças permanentes de sua passagem, quando criança, pela Universidade de Brasília.

O professor relata para o hotsite #UnB50anos dois anos de sua infância na recém construída Colina, local de moradia de professores que vieram para a capital tocar o projeto de uma nova universidade.

Meditsch é filho de Jorge de Oliveira Meditsch, que foi convidado a estruturar o Departamento de Química da UnB em 1964. O químico chegou a fazer alguns estudos sobre o cerrado brasiliense. Contudo, tanto ele quanto sua família tiveram seus planos interrompidos com a ocupação da UnB em 1965 por militares. Falecido em 1981, Jorge de Oliveira Meditsch fez parte da lista de mais de 200 professores que pediram demissão coletiva em protesto às ingerências da ditadura militar.


Até os dias de hoje, Meditsch guarda consigo um pedaço de quartzo retirado das imediações da Colina. A pedra o ajuda a manter vivo o intenso período no qual ele e seu pai estiveram na UnB.

Confira o depoimento completo:

Chegada na UnB
Meu pai, Jorge de Oliveira Meditsch, era professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e moramos ema Brasília entre 1964 e 1965. Ele tinha sido convidado a montar o departamento de Química e ficou no DF até a intervenção militar em 1965, quando houve aquele caso em que cerca de 200 professores se demitiram.

Boas lembranças
Na época, eu tinha entre 8 e 9 anos. Moramos no primeiro prédio construído na Colina. Mas tivemos que ficar hospedados antes no Hotel Nacional até que a obra ficasse pronta. Tenho lembranças agradáveis do Cerrado, de brincar entre as obras do Minhocão (Instituto Central de Ciências). Afinal, meu pai curtia muito a natureza e chegou a fazer pesquisas sobre a química de alguns plantas locais.

Convivência na Colina
Eu recordo do meu pai animado e de tantos outros cientistas, inclusive vários do exterior, que estavam juntos na UnB naquele período. Na Colina, havia pessoas de diferentes tipos de formação. Lembro-me de professores como Roberto Slameron, Lúcio Costa e Niemeyer. Na época, eu cheguei a ter aulas de iniciação musical para crianças com o Rogério Duprat, que foi um dos grandes maestros da Tropicália.

Era uma comunidade pequena e chegávamos a jantar uns nas casas dos outros. Era um clima excepcional de entusiasmo para um novo projeto de academia e de Brasil. Meu pai era católico e esse clima também estava ligado, de certa forma, à profecia de Dom Bosco de que a capital do país se tornaria um centro cultural do mundo.

Isolados na Colina
A lembrança marcante que tenho foi quando os militares demitiram alguns professores e a UnB foi ocupada militarmente. Nesse momento, fomos cercados dentro da Colina e tivemos que viver alguns dias assim, sem sair de casa, e rodeados por arame farpado e militares.

 Fusca metralhado
Apesar de não ter sofrido violência física, lembro-me de um professor inglês que não respeitou a ordem de isolamento e teve o seu fusca metralhado. O fato chegou a ter repercussão na época com protestos na Embaixada Britânica. Tudo isso marcou a minha infância. Afinal, a UnB já era muito isolada por si só. Para se ter ideia, eu estudava na escola Classe da 405/406 Norte e até ali era o nível máximo de urbanização da Asa Norte.

Volta para Porto Alegre (RS)
Passei minha infância e adolescência ligado à UFRGS. Depois, tornei-me professor de jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Somente voltei a ter contato presencial com a UnB a partir de alguns congressos importantes que participei.

A UnB: 1964 x 2013
Eu entendo que muitas pessoas fizeram muito esforço pra reconstruir a Universidade após a ditadura, mas sempre vai ficar aquela sensação de perda irreparável. Em 1964, a instituição vivia um momento de muito entusiasmo, de utopia. Afinal, tinha-se a ideia de construir um centro de referência para o Brasil.

Histórias da Ditadura
Depois de vários anos, eu tive contato com o professor tcheco Otto Gottlieb, um dos professores a negociar com o governo militar em 1965. Após a UnB receber a lista de demitidos pelo regime, uma comissão de professores foi se reunir com o Castelo Branco, que começou a berrar com eles. O Otto achou aquilo um absurdo, pois nem o seu pai havia berrava com ele.

Demissão precoce
O próprio Otto Gottlieb considerou uma precipitação a demissão em massa. Mas não tinha como os professores preverem que aquela ditadura demoraria tantos anos assim. Eles imaginavam que as coisas voltariam ao normal logo e que a UnB iria se reestabelecer.

Jornalismo e Academia
Uma referência importante da UnB é sua pesquisa em jornalismo. Aqui na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) nós fizemos o primeiro mestrado em jornalismo, mas daí [na UnB] vieram as primeiras linhas de pesquisa. A criação da linha Jornalismo e Sociedade (do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB) sempre foi uma referência para nós, ainda mais em um momento que a academia não compreendia muito bem o estudo do Jornalismo. Por isso, a UnB teve uma atitude muito corajosa.

Futuro do Jornalismo
Espero que o estudo do jornalismo seja reforçado, cada vez mais. Diante do advento desse novo mundo do conhecimento, ainda mais com a internet, torna-se cada vez mais necessário distinguir os tipos de informação disponíveis. Por isso, a tendência é intensificar o estudo especializado, específico, do Jornalismo em si.

Um presente para o cinquentenário
Para a UnB, eu deixaria, com muito prazer, os meus livros e minha disposição para ser sempre útil para colaborar com o que for preciso. Também tenho comigo um pedaço de quartzo ainda sujo de terra, que eu peguei do chão da Colina, e que uso como peso de papel. Essa pedra simboliza a minha ligação com a UnB.