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Crônica "Morar na UnB: os COs, a Oca e as Casinhas" (Luiz Martins)

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Luiz Martins da Silva
Em crônica descontraída sobre o período em que viveu no “CO”, como era chamada a CEU na época, o agora professor da Faculdade de Comunicação contextualiza a história dos alojamentos da UnB e conta casos de repressão a estudantes-moradores.

 

           A história dos alojamentos estudantis da Universidade de Brasília é muito rica. E repleta de episódios: alegres, tristes e até lendários. Os blocos, à maneira do Catetinho, eram de madeira. E o primeiro destaque vai para um tipo unilateral de disciplina: nos alojamentos dos homens não entrava mulher. Não entrava, vírgula, logo saberemos. Os professores moravam na Colina, a “Colina Velha”. E, a partir da década de 1980, também na “Colina Nova”. A Colina não escapou das “batidas” da repressão, em busca de subversivos e de material subversivo. O local foi abrigo de muita criatividade e rebeldia, entre elas, as de Renato Russo.

          Ao todo, foram seis os locais de moradia no campus da UnB: a Colina, as “Casinhas”, a “Oca”, o “CO Velho”, o “CO Novo” e o alojamento dos alunos da pós-graduação. As estudantes moravam no bloco da frente das “Casinhas”, pois no bloco de trás moravam as famílias dos estudantes casados, alguns com vários filhos. As Casinhas ficavam mais ou menos próximas ao que é hoje o estacionamento da Faculdade de Tecnologia, do lado de frente para o Minhocão (Instituto Central de Ciências). A Oca era a moradia mais centralizada, ficava perto do bambuzal, do campo de futebol de salão (vulgo “Maconhão”) e da Faculdade de Educação (FE). Nela, moravam funcionários.      

          Até que fossem inaugurados os dois edifícios do Centro Olímpico [hoje conhecidos como Casa do Estudante Universitário - CEU, mas que na época eram apelidados de CO, pois são próximos a este], em 1971, os estudantes moravam em alojamentos próximos ao Lago Norte, num terreno que seria incorporado à área cercada do CO, tal qual é hoje. Não existiam os prédios próprios da Biblioteca Central e da Reitoria, que funcionavam, respectivamente, num bloco da Engenharia Elétrica e da Faculdade de Educação, ao lado do Auditório Dois Candangos. De todos os prédios, o mais novo é o bloco destinado aos estudantes da pós, um alojamento misto, situado na Colina (entre a Velha e a Nova).          

Luiz Martins da Silva - depoimentosMas vou me referir especificamente ao “CO Novo”, onde morei. Eu passei no vestibular de Comunicação (Jornalismo) de 1971 e ocupei a última vaga num apartamento. Quando cheguei, portanto, já estavam instalados cinco estudantes naquele “apê”. Um deles tinha o apelido de “magro”. E fiquei sendo o “Supermagro”, embora fosse muito “bom de garfo”. Em tempo: o R.U. (Restaurante Universitário) da época também era de madeira.

Os dois blocos do CO mal foram inaugurados e já ficaram lotados. Um bloco para os meninos e outro para as meninas. As Casinhas foram derrubadas. Em cada unidade, “apê” ou casinha, moravam seis estudantes. E ali o pernoite de visitas não era permitido. As alunas podiam receber visitas de amigos e namorados. Já no CO, nada da presença feminina, exceção feita apenas a diaristas: lavadeiras e faxineiras. “Por baixo dos panos”, no entanto, a história era outra. Já ao tempo do “CO Velho” se fazia vista grossa a eventuais visitas de caráter “afetivo”, digamos assim.          

           É preciso registrar que politicamente a UnB já era uma terra arrasada em 1971. Toda e qualquer atividade política não só era oficialmente passível de punição (Decreto-Lei 477) como era mais do que clandestina: suicida. Sim, porque o campus estava minado de “dedos-duros”, ou seja, agentes da repressão infiltrados nos três segmentos: estudantes, professores e demais funcionários. E havia na UnB, como em qualquer órgão público, uma Assessoria de Segurança e Informações (ASI), braço do temido Serviço Nacional de Informações (SNI), comandado desde o Palácio do Planalto. Isso porque o Chefe do SNI era um dos quatro “Ministros da Casa” (os outros eram do Gabinete Militar, Gabinete Civil e Planejamento), que despachavam toda manhã com o Presidente, abrindo a agenda presidencial. O SNI era para todos uma espécie de sombra metafísica, onipresente e onisciente, que a tudo controlava e de tudo sabia, inclusive porque contava com os famigerados “agentes duplos”, por exemplo, os dublês de alunos e policiais.          

          Para além da magreza natural que caracteriza os jovens aos 20 anos de idade, tínhamos excelente forma física porque caminhávamos muito. Os ônibus que atendiam a UnB (Transportes Coletivos de Brasília - TCB) eram escassos e o dinheiro minguado. Mesmo os estudantes tidos como ricos não andavam de automóveis pra lá e pra cá.  Quando muito, um fusquinha era o presente típico que a classe abastada oferecia aos vitoriosos no vestibular. E, ao contrário do que acontece hoje, era inimaginável que um estudante “carente” (candidato ao CO e a algum tipo de bolsa) tivesse carro.

          Entre 7h30 e 8h uma imensa fila de estudantes caminhava desde o CO até o Minhocão. No meu caso, como a Faculdade de Comunicação (na época era Departamento) ficava (e ainda fica) no extremo Norte do prédio, andava mais 700 metros. Chegávamos suados para a primeira aula. Depois do meio-dia, íamos ao RU; de tarde, estudávamos na BCE ou, com muita sorte, dedicávamos meio expediente a uma “Bolsa de Trabalho” (meio salário-mínimo). À noite, nos recolhíamos. Naquela época, não havia, como hoje, vida social e cultural no campus. Como se dizia àquele tempo, mais de duas pessoas juntas já era considerado “reunião”, algo temerário para aqueles tempos.        

           Na década de 1970, o campus da UnB era depressivo. E todos desconfiavam de todos. Foi nessa atmosfera que se teve notícia do suicídio de um aluno, morador do CO. Pelo que se soube, não tinha vinculações políticas. Mesmo assim, um estudante de Comunicação tomou a iniciativa de redigir um panfleto, denunciando a indigência existencial de quem morava na UnB. Entretanto, somente um provocador sairia pelo campus distribuindo material de conteúdo político. Qual a saída? Ele deixava cópias do folheto nos banheiros, mas, para isso, um colega ficava vigiando. E avisava se vinha alguém.          

          A repressão a qualquer vestígio de atividade política era tão intensa que ainda que ninguém se arriscasse a nada, mesmo assim poderia correr o risco de ser preso, qualquer que fosse a suspeita. Uma das anedotas da época dava conta de que um “cara” foi preso e, enquanto estava “apanhando”, gritava: “Eu sou anticomunista, eu sou anticomunista”, ao que o “tira” respondia: “Comunista, qualquer que seja, leva pau”.          

          Durante semanas, um “carro de passeio”, supostamente com “agentes da repressão”, “dormia” numa das pistas próximas ao CO. Se eram “cana” ou não, nunca se soube. Mas, por coincidência, um colega de alojamento voltou bem cedo, tinha esquecido um livro. Deu de cara com o porteiro e o zelador olhando debaixo dos colchões, visivelmente à procura de material subversivo. Surpreendidos, deram uma explicação fajuta: “Estamos combatendo baratas”. Ora, o prédio era novo, ainda cheirava a tinta fresca. Poucos dias depois, sumiram livros e objetos dos moradores daquele apartamento. Mais alguns dias se passaram e dois colegas nossos sumiram. Reapareceram 15 dias depois, tinham sido presos e torturados. Enquanto isso, deliberamos que ninguém sairia da rotina, pois isso seria como confessar alguma culpa. E a verdade é que não tínhamos qualquer vinculação política. Por que então foram presos?          

           Na tortura, há que se contar alguma coisa, para não parecer que é “durão”, sinônimo de liderança que não quer entregar os “companheiros”. Pelo que contaram, os dois colegas nossos tinham sido presos por serem de Porto Nacional, cidade situada ao norte do então Estado de Goiás, hoje Tocantins. Ou seja, eles eram da região do “Bico do Papagaio”, um dos locais “quentes” no mapa da Guerrilha do Araguaia. Acabaram confessando que tinham pichado muros com propaganda do Partido Comunista do Brasil e enquadrados como “simpatizantes”. Creio que o “Magro” e o “Manezim” teriam muito o que contar, hoje, à Comissão da Verdade da UnB. Nunca mais tive notícias deles. Quem sabe recolham esta crônica como uma garrafa no oceano e reapareçam, com o seu lado da memória, imcompleto poliedro.