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Depoimento: confira histórias curiosas de um morador do CEU na década de 90

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Escrito por Paulo Victor Chagas

O ator Reverson dos Anjos revela, em depoimento ao portal, que os melhores anos da sua vida foram os que passou na Casa do Estudante da UnB (CEU)


Reverson dos Anjos morou na Casa do Estudante da Universidade de Brasília no final da década de 1990, quando se graduou em Desenho Industrial. Apesar de ter feito especialização em Arte Educação e Tecnologia e mestrado em Transportes, o ator das companhias “Os Sei Lá Quem” e “Teatro do Instante” revela que os melhores anos de sua vida foram os que passou na CEU.

 

Ingresso na UnB
Morei na Ceu em um momento muito marcante para mim. Após estudar a vida inteira em escola pública, consegui entrar em uma universidade federal, pública e gratuíta, uma das melhores do país. Vitória de poucos, se considerarmos a quantidade de pessoas que tentam todos os semestres com uma sonhada vaga.

 Chegada à CEU
Meus pais moravam (e ainda moram) em Aparecida de Goiânia (GO), e antes de conseguir a vaga eu estava morando com uma tia na Ceilândia (DF). Mudar para a CEU fez com que eu passasse a viver e vivenciar a UnB 24 horas por dia, me permitindo sentir plenamenamente o significado da palavra “Universidade”, já que me foi mostrado um universo totalmente novo

Ceu, casa do estudante, reverson dos anjos

Convivência na Universidade
Eu não ia para a UnB apenas para estudar. Eu vivia nela. Dormia, comia, estudava, trabalhava, me divertia todos os dias por lá. A CEU era minha única opção de imersão completa no mundo acadêmico, afinal não tinha condições financeiras de bancar uma moradia. Estando tão perto, poderia me dedicar mais aos estudos diários.

Melhores anos
Os melhores anos de minha vida foram os que passei na UnB e na CEU. Aprendi a conviver com pessoas completamente diferentes, muitas delas de outros estados, outras culturas. Fiz boas e grandes amizades que mantenho até hoje. O apartamento em que morava, o bom e velho 107 do bloco B, era misto (homens e mulheres) e por isso era como se fosse uma familia (como irmãos e irmãs).

 Dia-a-dia na CEU
Quantas coisas boas aconteceram por lá: almoços comunitários, jogos daC opa do Mundo, nados na piscina do Centro Olímpico (CO), chazinho de erva cidreira colhido lá mesmo, seção de pizza, de filmes, aniversários. Era bom demais acordar, pegar a bike e seguir para as aulas no minhocão, almoçar no restaurante universitário, estudar na biblioteca, cumprir as horas de trabalho como bolsista, participar dos eventos culturais (teatro, música) e voltar para o apartamento da CEU, onde se podia trocar ideias, colocar os exercícios em dia, ver um pouco de TV e relaxar para o próximo dia de aula.

 Memórias
E quantas histórias tem essa CEU. Lembro-me do Jarbalino que morreu dormindo em seu apartamento e teve de ser retirado pela janela pelos bombeiros. Também teve o lendário "homem-pássaro" que religiosamente à uma hora da manhã dava seu grito de guerra pela janela do apartamento. Eu mesmo lembro particularmente de uma em que me envolvi, pois meu irmão, na época adolescente, ao me visitar, caiu do parapeito do primeiro andar quando estava do lado de fora da janela tentando pegar goiabas numa goiabeira que ficava no canto do prédio. Isso um dia antes de viajar para participar do projeto Universidade Solidária e lá estava eu tentando explicar pra todo mundo como o menino foi cair de lá de cima, que ninguém ali usava drogas, que ninguem empurrou ele, e coisas do gênero.

Lugar de paqueras (ou não)
Na época eu usava óculos ‘fundo de garrafa” e ninguém sabia, pois saía sempre de lentes de contato, e na correria desci correndo de óculos e por ironia do destino todas as mulheres do prédio tinham descido para ver o menino caído se contorcendo no chão e eu com aqueles óculos horriveis, uma camisa toda abotoada errada e um par de chinelos rosa, o primeiro que encontrei pela frente no furor do evento.

Bem, se eu nunca tive chance com aquelas mulheres, depois da ajuda do meu irmão é que eu não teria mesmo. E lá fomos nós para o Hospital de Base. Eu ainda tive que aguentar piadas no hospital de que pelas aparências eramos moradores de rua e amantes, vejam só, amantes... Bem, mas por sorte, meu irmão não chegou a quebrar um osso sequer.

O que significou o período
Morar na CEU, olhando por outro ângulo, nem era uma questão de não ter recursos financeiros, ia muito além, era a oportunidade de participar de um mundo novo, de viver verdadeiramente uma universidade e não apenas estudar nela. Com certeza absoluta morar por lá contribuiu não só na formação acadêmica, mas principalmente na formação do cáracter de cada um.