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Depoimento: Guilherme Moura, formado pela CEU e pela UnB

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Escrito por Paulo Victor Chagas

Guilherme Moura Fagundes morou na Casa do Estudante Universitário (CEU) desde o começo de sua graduação em Ciências Sociais até o desalojamento da Casa para reforma. Após se formar, passou em primeiro lugar na seleção de mestrado em Antropologia na UnB, resultado que atribui à política de cotas e de assistência estudantil da Universidade.

“Eu sou a Casa do Estudante em pessoa”, sintetiza Guilherme, 25, sobre o período em que conviveu no campus universitário Darcy Ribeiro. “Quando cheguei em Brasília, meu primeiro ônibus foi o 110, num domingo de manhã. Vim direto para a Casa do Estudante porque não tinha onde ficar”, relembra. O ano era 2005. Como o processo de solicitação de moradia demoraria alguns meses, Guilherme foi morar no apartamento de uma representante da Associação dos Moradores da CEU (AMCEU) até que fosse declarado estudante de Baixa Renda I – categoria pela qual a Universidade define os estudantes em situação socioeconômica insuficiente para estudarem na Universidade sem assistência – e sua permanência na casa pudesse ser legalizada.


Guilherme Moura está no 2º semestre do mestrado em Antropologia da TécnicaO estudante vê a condição de morar dentro da Universidade como uma oportunidade de aprimoramento dos estudos: “Consegui estudar de maneira mais dedicada: consumia alimentação do Restaurante Universitário, passava grande tempo na biblioteca, tinha acesso à vanzinha, que possibilitava ter um itinerário mais facilitado para o nosso tempo de estudo”, explica.

Sobre a distância da CEU com relação às regiões residenciais da cidade, Guilherme destaca pontos positivos e negativos: “Muita gente não suportava esse distanciamento, entrava em depressão. Quem vem do interior para uma cidade como essa sente a diferença. A gente não tinha acesso a supermercado, a farmácia”, detalha Guilherme, que é natural de Barretos (SP). Mas pondera: “Tivemos que criar um ambiente comunitário com nossos vizinhos. A família e amigos sempre foram da Casa do Estudante. Isso facilitou a integração.”

Dentre os movimentos importantes para essa integração, Guilherme destaca o cineclube e a horta comunitária. Guilherme ajudou como voluntário a fundar o CineCEU e comparecia aos encontros semanais na “hortinha”. Na época de plantio, ele conta que os moradores organizavam mutirões onde os frutos da horta eram de uso coletivo. “Inclusive os próprios servidores da Casa do Estudante trabalhavam na hortinha e usufruíam dela também.”

Segundo Guilherme, as reivindicações dos moradores da CEU foram essenciais para as conquistas que a assistência estudantil e os demais estudantes tiveram nos últimos anos. “Se hoje os moradores têm direito a bolsa alimentação quando o RU fecha é em função da gestão da AMCEU, que ocupou a reitoria duas vezes para conseguir as marmitas durante os domingos”, destaca.

“A Casa do Estudante exportou para a Universidade o perfil de estudante com engajamento político, preocupação na excelência acadêmica”, completa. Para Guilherme, a CEU foi um “processo de educação política e de aprender a conviver com as diversidades”. Um dos frutos desse período, segundo Guilherme, é o Episteria.

A ideia era simples: reunir estudantes de ciências humanas a fim de debater epistemologia política. “Toda minha formação é em função desse grupo”, afirma. Aos domingos à noite, cada semana em um apartamento, alunos de cursos como história, ciências sociais, geografia e filosofia se encontravam para discutir questões teóricas e políticas. Como os textos iniciais debatiam o conceito de epistemologia, os criadores do grupo quiseram fazer uma crítica à ideia de histeria e daí surgiu o nome, episteria. “Esse grupo me formou enquanto antropólogo, teórico social, foi algo muito forte para mim”, enfatiza Guilherme. Hoje em dia o grupo continua se reunindo, de forma menos frequente, no RU.

Guilherme aponta a desterritorialização da CEU como um problema para a mobilização dos estudantes. “Se esse trabalho de resgate da memória da Casa do Estudante não for feito, quando a Casa do Estudante voltar, será ocupada por pessoas que não têm noção do que é movimento estudantil, e não têm preparo político de lutar pelos seus direitos”, visualiza. “Quem mais se mobilizava na época era quem estava do meio do curso para frente, e isso era repassado aos mais novos, e agora essas pessoas já se formaram”, justifica Guilherme.

A trajetória do estudante, conforme ele próprio testemunha, se confunde com seu período de convivência na Casa e na Universidade. Estar na Casa do Estudante possibilitou a Guilherme conhecer a sua esposa: “Nós estudavámos juntos todos os dias. Saíamos do RU, pegávamos a vanzinha que passava lá às 18h30. A gente ia para a CEU, tomava um banho, ia para a BCE às 19h30, ficava lá até às 23h e pegava a vanzinha de volta para a CEU. E quando a coisa estava apertada a gente ficava no salão do bloco A até umas 2 da manhã. Aquele salão do Bloco A é o salão que se fosse fazer um filme da minha história, um momento romântico seria aquele salão, é onde eu dei o primeiro beijo nela. Um dia, eu ainda quero poder levar os meus filhos naquele salão, onde tudo aconteceu. Nesse dia, estávamos nesse salão, era meia-noite, duas moradoras estavam indo estudar lá também. Quando elas nos viram se beijando, ficaram com vergonha e saíram, a gente foi atrás delas correndo, dizendo: ‘Não, volta, estuda’. Aquele salão marca muito para mim.”

Após saírem da CEU em decorrência da reforma, Guilherme e sua companheira de estudos e de vida, Mariana, passaram a receber as bolsas-moradia fornecidas pela Diretoria de Desenvolvimento Social (DDS) e foram morar juntos na Asa Norte, onde estão até hoje. Ele recebe agora bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o seu mestrado em Antropologia da Técnica. Já Mariana está concluindo a graduação em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia.