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Aprovada na 1ª turma de Letras, Neusa Dourado conta como era o perfil dos estudantes na época

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Leyberson Pedrosa

Obras em construção, carona solidária, entrosamento entre os estudantes, participação voluntária e aulas magnas. 2012? Não. Conheça como era a realidade dos primeiros estudantes da UnB em 1962.

Foto de capa: Leyberson Pedrosa

Em fevereiro de 1962, a relação de 413 aprovados em Direito, Letras, Arquitetura e Urbanismo e Economia foi afixada nas paredes do Ministério da Saúde. Entre os nomes listados, estava o da jovem Neusa Dourado com apenas 20 anos. Recém-chegada à Brasília, a baiana de Paratinga logo soube da oportunidade de fazer um ensino superior na capital do país e se inscreveu no primeiro vestibular da Universidade de Brasília. Assim que o curso de Biblioteconomia foi criado em 1965, Neusa resolveu mudar de área e se formou bibliotecária. Já na profissão, idealizou o projeto “Mala do Livro”, que leva as publicações da biblioteca para as residências. “Hoje, tudo que eu sou, o que desenvolvi, foi por apego ao livro.O livro é meu caminho”, enfatiza.

Neusa também participou de vários momentos históricos da Universidade. Entre eles, o da inauguração do Auditório Dois Candangos. Em 1968, quando se formou, a UnB passava por um dos momentos mais conturbados do regime militar. Desde então, manteve sua história com a UnB a partir do envolvimento de filhos e outros familiares. Atualmente, aos 71 anos, a bibliotecária relembra daquele período em que começou a estudar na UnB antes mesmo que próprio Campus Darcy Ribeiro estivesse pronto. Confira a entrevista.

Leyberson: Em 1962, o seu primeiro vestibular foi também o primeiro da UnB...

Neusa Dourado: Cheguei em Brasília no dia 7 de janeiro de 1962 e logo recebi a notícia sobre a UnB porque a lei de criação da universidade tinha sido assinada em dezembro de 1961 e resolvi fazer o vestibular que foi aplicado no Ministério da Saúde. Foi lá onde a gente fez o primeiro vestibular, onde tivemos a alegria de ver a relação dos aprovados, além de termos as primeiras aulas. Eu escolhi Letras na época. O vestibular somente era oferecido para Letras, Direito, Arquitetura e Economia. O primeiro vestibular teve 830 candidatos e 413 aprovados. A prova foi realizada entre 25 e 27 fevereiro no ministério porque a UnB ainda era um grande canteiro de obras.”

L: De Letras, você mudou para Biblioteconomia. Por quê?

Neusa: Na minha casa, meu pai sempre foi ligado aos livros. Naquela altura da vida, eu não sabia bem se o meu interesse era para lecionar ou para trabalhar com os livros. Po isso, comecei com letras, sempre envolvida com livros. Em 1965 aconteceu o primeiro vestibular para Biblioteconomia. Naquele momento, havia mais facilidade para transferir de curso pois os dois primeiros anos eram básicos para, depois, especializar na área. Então, aproveitei e mudei para Biblioteconomia, já tendo uma boa formação em Letras com ótimos professores.”

L: Como foi a inauguração oficial da UnB?

Neusa: No dia 9 de abril, as primeiras aulas começaram no Ministério da Saúde enquanto a UnB estava sendo construída. No dia 21 de abril, houve a inauguração no Auditório Dois Candangos. Mas um fato interessante é que nós, alunos, ficamos sabendo da pressa na construção e resolvemos ajudar a montar o auditório, a arrumar as cadeiras. Claro que eu não peguei no pesado – foram mais os rapazes. Só não sabíamos esse ato voluntário ficaria para a história. Era aquela vontade de jovem de vamos fazer isso, vamos... Esse momento foi marcante pois, depois de 29 anos, em 1991, meu filho Ricardo Freire se formava em Música no mesmo auditório que eu ajudei a montar. No dia 21, inaugurou o campus da UnB, mas as aulas em si não começaram logo no dia 22 no campus. Teve aquela coisa do conserta aqui, termina ali e fomos aos poucos. Eu posso dizer tanto que cheguei junto a UnB quanto que ajudei na parte física e que, de alguma forma, estou ligado a ela até hoje, mesmo tendo me formado em Biblioteconomia em 1968.
 

L: Você se formou em um dos anos mais conturbados para a história da UnB...

Neusa: Hoje mesmo eu estava pensando nisso. Poxa, foi tudo muito conturbado. Mas eu estudava muito e trabalhava também. Então, apesar de ter muitos amigos envolvidos nas lutas da época, não tinha muito tempo de estar na UnB. Quando terminava minha aula pela manhã, eu já tinha que sair correndo para dar aula no primário em Sobradinho. Eu saia de ônibus da UnB direto para a rodoviária e, de lá, para Sobradinho.

 L: Qual era o perfil das primeiras turmas de alunos?

Neusa: É até uma curiosidade: Nesse primeiro vestibular tinha muito pai e mãe de família, donas de casa, pessoas com filhos crescidos, outros que trabalhavam e já estavam bem estabelecidos. Tinha muita gente também que tinha chegado em Brasília e não tinha encontrado oportunidade em seus lugares por motivos diversos. As primeiras turmas da UNB eram de pessoas com mais de 25 para frente. Não era um perfil de jovens, eu me sentia menina naquele meio porque tinha somente 20 anos, eu era bem nova. Eu estava lá começando, mas também já estava trabalhando e buscando um curso superior para ir adiante.

L: E o perfil dos professores?

Neusa: Cada aluno tinha um professor orientador. O meu orientador, por exemplo, foi Ciro dos Anjos, escritor negro, que escreveu vários livros. Ele era conselheiro do Tribunal e depois virou professor da UnB. Qualquer problema, qualquer dificuldade, ou quando ele conhecia algo da minha área, eu poderia procurar ele. Uma vez por mês a gente tinha um encontro. Era até apertado pra mim porque eu trabalhava e tinha que sair correndo. Mas ele já era um senhor e entendia a situação. Mas parece que a UnB, naquele período, fazia de tudo para facilitar a vida dos estudantes e para entrosá-los.

L: O que mais te marcou nesse primeiro ano de UnB?

Neusa: O que me chamou a atenção daquela época eram as aula magna ou aula maior como chamávamos. A aula começava às 7 horas da manhã e às 7h15 ninguém mais podia entrar. Eram 2 horas de aula semanais com professores realmente notáveis. Era maior no tamanho e em tudo. Inclusive, estava olhando uma Revista Darcy e li que o Nyemeier delineou espaço para a aula magna. Para você ter ideia, antes, era tudo compartilhado, desde às aulas até o cafezinho oferecido em barraquinhas de madeira

L: O que mais era compartilhado?

Neusa: compartilhávamos bastante condução. Quem tinha carro dava carona para quem não tinha. Tinha um processo de carona solidária e era tranquilo. Ninguém tinha medo, não acontecia nada, considerando, claro, que as aulas eram todas pela manhã.

L: Como ficou o seu contato com a UnB depois de 1968?

Neusa: Eu passei um período de casamento, filhos pequenos e rabalho novo. Mas não fiquei muito distante, não. Minha relação com a UnB é bem próxima pois eu fui pra lá pra estudar e foi um presente ela estar começando. Eu posso dizer que hoje também faço parte da história da UnB por ter feito o primeiro vestibular, por ter um irmão que é médico pela UnB, irmãs que estudaram lá, um filho engenheiro florestal pela universidade e um,filho formado em Música que é o diretor do departamento. Tenho uma nora professora e até meus netos estão na UnB?

L: Os netos também?

Neusa: Sim, sabe aquele projeto de música para criança? É um projeto desenvolvido pelo meu filho. Então, os meus netos participam da UnB desde pequenos.

 L: Agora a UnB tem 50 anos. O que você espera daqui em diante?

Neusa: Sinceramente, espero que consolide a proposta inicial do Darcy Ribeiro. Ela ainda está presente na UnB. Falta apenas despertar a consciência da importância dessa proposta para Universidade. A preocupação do Darcy era de uma educação integral, democrática que não se pode perder de vista. Talvez toda essa movimentação de comemoração do jubileu ajude a despertar para a importância dessa proposta. A UnB também precisa acompanhar o avanço da tecnologia. Na minha época, não se pensava direito em fax, imagina em computador ou celular. Até mesmo na literatura é muito difícil acompanhar as mudançsas.

 L: E o seu presente para a UnB?

Neusa: Ah, eu dei o concerto realizado pelo meu filho na FioCruz. Fiquei muito emocionada na ocasião. Ele me deu duas alegrias quando foi a formatura dele. Não sei em que cadeira eu estava sentado, mas eu sentia que tinha ajudado a deixar pronto aquele auditório e, ao mesmo tempo, via meu filho se formar nesse lugar.

 L: A Mala do Livro tem alguma relação com a UnB?

Neusa: Com certeza! A minha ligação aos livros começou com meu pai, mas depois quem a consolidou foi a UnB. Eu comecei com Letras, passei por uma fase maravilhosa e continuei com ótimos professores na Biblioteconomia. Então, em que mais eu poderia dedicar minha vida? À formação da leitura. Tirei o livro da biblioteca e levei para a residência. A caixa eu ganhei do instituto nacional do livro. A caixa estante já existia, não é nada de novo.

L: Quer concluir nossa conversa com alguma lembrança?

Neusa: Olha, o professor Edson Nery da Fonseca dizia que todos eram responsáveis pelo crescimento da UnB, porque era a melhor a Universidade do país. Então, todos nós tínhamos que contribuir para que essa universidade fosse realmente a melhor do Brasil, e o professor tinha certeza que a UnB era a melhor universidade. Por isso tudo, eu tenho muito orgulho da UnB.