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Depoimento: Jornaleiro Gilson Queiroz escolhe a esperança como presente para a UnB

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Leyberson Pedrosa

Após mais de 40 anos de trabalho no Campus Darcy Ribeiro, Gilson afirma que mantém as esperanças de uma universidade mais unida em seus ideais

Uma banca no ICC Sul e um dono de opinião forte. Esse é Gilson Fernandes de Queiroz. A frente de uma banca de jornal que existe na UnB há mais de 40 anos, Gilson deu seu depoimento ao portal UnB50Anos. O jornaleiro vivenciou e vivencia a consolidação da UnB desde 1970. Durante o relato sincero, ele contou momentos marcantes que presenciou, como se instalou na Universidade e falou sobre a convivência com a ditadura militar e suas perspectivas para o futuro da instituição.

Antes de ter uma banca definitiva na ala de acesso do ICC Sul, Gilson e sua mãe, dona Francisca Pereira de Queirós, já estiveram em uma banca de madeira perto do primeiro restaurante universitário e no pequeno prédio da OCA I, onde se encontra, até hoje, a Barbearia do Chico, conterrâneo do Rio Grande do Norte. Durante esse período, trouxeram outro Chico para trabalhar com eles: o Chiquinho da livraria. Depois de um tempo, cada um dos Chicos seguiu seu próprio rumo e Gilson se estabeleceu como um dos principais jornaleiros do campus Darcy Ribeiro.

Chegada na UnB
“Eu cheguei em 1970 junto a minha mãe. O acesso era bem difícil. Eu trabalhava nas entradas dos primeiros prédios lá em cima. A banca ficava perto do restaurante que era servido pelos próprios alunos. Depois de um tempo, a banca pegou fogo e nós fomos transferidos para um casinha no meio do estacionamento (OCA I), onde ficou instalada a Barbearia do Chico, uma sapataria que, recentemente, virou loja de informática e o Cine Foto. Ficaram todos os quatro estabelecimentos na mesma construção de alvenaria.”

Mudança para o ICC Sul
“Quando estávamos na OCA I, eu tinha uma pessoa que trabalhava também na entrada do ICC Sul e o Chiquinho (Chiquinho livreiro) que trabalhava na outra entrada (ICC Norte). A gente trabalhava com minha mãe Francisca Pereira de Queiroz, que partiu há dois anos. Assim, antes da mudança, eu ficava carregando as grades com jornais da OCA I para os ICCs com o Chiquinho."

O comércio de jornais no regime militar
"Lembro-me bem que na época da ditadura eu vendia de tudo: O Movimento, Pasquim, Opinião, tudo por debaixo do pano. O 'engraçado' é que tinha muita infiltração do pessoal da SNI (Extinto Serviço Nacional de Informações). Por isso, foi um momento marcante, pois eu acompanhei de perto toda a invasão da UnB. A gente tinha que vender esses jornais escondidos: eram os jornais nanicos, como falavam. Mas minha mãe e eu até conhecíamos as pessoas do SNI e o pessoal era até gente boa. Mas claro que durante a invasão quem olhasse torto para os militares já levava 'cacete'. Tenho até uma história curiosa de um militar que se chamava King Kong. Os estudantes ficaram batendo o bandejão no restaurante em protesto e ele chegou, entrou e saiu com dois alunos a tira colo, um de cada lado. Depois, jogou os dois no camburão de uma vez."

Os lados da mesma moeda
“Pra mim, a ditadura teve seu lado ruim, mas teve o lado bom. Os estudantes que participavam dos centros acadêmicos (CA) tinham uma participação ativa na universidade e se discutia mais sobre o futuro da instituição. Não é igual a esses CAs que só tem gente jogando sinuca e tomando cachaça. Atualmente, a universidade é uma instituição de ensino superior que está jogada. A gente tem que ter o comandante e os comandados. Tem que ter disciplina. Não quero uma ditadura, mas precisa de disciplina. Pra mim, aluno tem que vir aqui para estudar."

A banca como um ponto de encontro
“É bastante comum, sim, principalmente entre professores. Tenho freguês há mais de 30 anos que se formou, formou o filho e continua vindo. Tenho, também, vários amigos professores que já saíram da universidade. Acompanhei muito deles que desistiriam da UnB por perderem o incentivo, a motivação e desistirem.”

Frequentadores conhecidos
“São vários. O Cristovam Buarque, por exemplo, é meu amigo e da minha mãe. Posso citar o Chico Floresta. Enfim, eu conheço esses políticos todos que saíram da UnB. Ah, eu me lembro do Honestino Guimarães também por aqui.”

Momentos marcantes
“A própria queda do regime autoritário porque a democracia é muito importante. O diálogo é essencial. Só não imaginava que o diálogo fosse virar bagunça. Já ouvi gente falando em trazer os militares de volta, mas aí já é demais também. Outro momento que achei maravilhoso é essa polêmica das cotas. Eu acho ela necessária porque tem muita gente pobre que não teria condições de entrar se não fosse por esse sistema.”

Seu presente para a UnB
“Eu daria a esperança que tenho comigo para que acabe essa disputa por poder e prevaleça a união em um só ideal. As pessoas estão esquecendo a verdadeira essência da universidade que é formar alunos. Elas devem focar mais na pesquisa, na união da classe acadêmica, além de voltar a UnB mais para o esporte, cultura e lazer. Quem sabe fazer uma praça de encontro...um lugar próprio de encontro.”