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Perfil: Chico da Barbearia conta como chegou na UnB em 1967

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Leyberson Pedrosa

De suas antigas e resistentes cadeiras Ferrante, Francisco Amorim conta sobre personagens que passaram pela barbearia do Chico ao longo de seus 45 anos na UnB.

Francisco Bertoldo Amorim trabalha como cabeleireiro na UnB desde os 21 anos de idade e está acostumado a ser chamado pela clientela pela alcunha de Chico da Barbearia. Seu ponto de trabalho fica localizado em uma pequena construção de alvenaria na OCA I, no meio do estacionamento do ICC Sul da UnB. Entretanto, a relação de seu Chico com a universidade começou em uma vila de barraco onde funcionava a estrutura do Decanato de Assuntos Comunitários (DAC). O espaço abriga, atualmente, o Instituto de Artes (IdA). "Eu vim pra cá por causa de um primo que já trabalhava na UnB e que conseguiu emprego pra mim junto a outro cabeleireiro. Na época, a barbearia ainda era de madeira”.

Depois de ganhar mais experiência com o ofício, seu Chico comprou o estabelecimento de seu amigo. Antes disso, teve dúvidas se o trabalho em Brasília seria sustentável. “Só tinha cabelulo e barbudo na UnB. Eu já atuava como cabeleireiro na minha cidade natal, em São Miguel (RN). Mas aqui pensei que não iria ganhar dinheiro”, brinca.

Essa e outras histórias fazem parte da conversa de seu Chico com a equipe do portal #UnB50Anos. Além dos clientes cabeludos, ele relata os momentos de represssão que presenciou ao lado de suas cadeiras de ferro, que chegaram na UnB antes mesmo que o próprio Chico.

Leyberson: Pra começar, por que trabalhar na UnB?

Chico da Barbearia: Cheguei na UnB com 21 anos em 1967. A UnB estava com cinco anos desde a inauguração. Vim trabalhar através de um primo meu que já trabalhava na fundação e inclusive se aposentou aqui. Na época, existia uma barbearia na UnB e ele me convidou, pois eu já trabalhava de barbeiro na minha cidade, para trabalhar com esse outro barbeiro. Na época, a barbearia ainda era em um barraco de madeira ali perto do Instituto de Artes. Nesse tempo, praticamente não tinha quase nada na UnB. Então, cheguei naquela época da Jovem Guarda...só tinha cabeludo e barbudo na UnB (risos). E eu, acostumado com o pessoal de São Miguel, no Rio Grande do Norte, que fazia o cabelo com aquele corte bem cortadinho. Aí eu pensei: não, aqui eu não vou ganhar dinheiro, não...Cheguei a ser funcionário do quadro da UnB até comprar a barbearia do outro barbeiro. Mas a barbearia já funcionava na Oca I (onde está instalada atualmente). Então, eu to por aqui desde esse tempo.


L: Então, na Jovem Guarda o pessoal aí não cortava muito o cabelo...

Chico: Quando cheguei, eu pensei até que não cortava. Mas mesmo pouquinho o pessoal cortava, não cortava aquele cabelo curtinho, mas fazia as pontas aparava a barba. Depois que eu entrei no ritmo, vi que dava pra trabalhar de barbeiro, sim.

L: E, entre os cabeludos, muitos nomes conhecidos?

Chico: Teve gente até que virou ministro. Teve um que foi ministro do transporte, meu freguês desde a época que ele foi aluno da UnB até hoje. Tem muitos outros, um virou promotor, juiz e daí por diante..

L: O senhor tem 45 anos de UnB. Já chegou a comemorar essa data?

Chico: Não, nunca.

L: Mas, nesse período, nenhum evento que te marcou?

Chico: Às vezes, a gente presencia alguma coisa como, por exemplo, os jogos de estudantes. Parece que em 1974, se não me engano, aconteceram jogos muito importantes com muita gente. Teve também aquelas greves “brabas” que eu assisti. A mais forte foi a de 68. Teve uma época que a gente não podia andar do lado do outro, porque você era suspeito de tudo.

L: Você chegou a sofrer repressão?

Chico: Não, graças a Deus, nunca. Inclusive, ver polícia bater em alguém eu também nunca vi. Se dizer que vi é porque estou mentindo. Mas, tinha aquela repressão que ninguém podia falar de governo, de político. Muitas vezes, tinha muita policia que se infiltrava na UnB se passando por aluno.

L: Como você quer ver a UnB daqui pra frente, após 50 anos de história?

Chico: Eu espero que uma boa administração para o futuro. Eu gosto da UnB, trabalho aqui esse tempo todo e me dou bem com todo mundo. Tem professor que eu corto cabelo há mais de 40 anos. Agora, se você me perguntar o nome, aí são poucos que eu vou saber. Também tem muitos alunos. Teve uma época que todos aqueles alunos que moravam no Centro Olímpico cortavam aqui.

L: Acredita que a sua barbearia já virou ponto de encontro?

Chico: Ah, nossa, isso aqui em dia de sábado...várias pessoas se encontram. Professores...pessoas que não se viam há muito tempo e que se formaram voltam para cortar cabelo na barbearia. Às vezes, um ex-aluno encontra o professor e fala contente: “mais você foi meu professor!”.

L: Que presente o senhor daria para a UnB?

Chico: Agora você me apertou. Eu não sei nem o que te dizer: talvez, um presente que fosse o melhor para a universidade.

L: Nada da barbearia, nenhum objeto para simbolizar?

Chico: Ah, sim! Tudo, inclusive essas cadeiras que são antigas. Quando eu cheguei, elas já existiam na UnB. Devem ter, no mínimo, 60 anos pois eu já as peguei do outro barbeiro, que tinha comprado de outro e por aí vai...São umas cadeiras da marca Ferrante...que não tem fim, que não acaba. Quando acaba a pintura, você pinta de novo, troca o estofado, e pronto. Já aquelas novas eu tive que fazer reforço para aguentar.

L: O senhor vai aguentando até quando na UnB?

Chico: Rapaz, enquanto eu der conta de trabalhar e a UnB aceitar.

L: O senhor é uma Ferrante praticamente...

Chico: É! Eu e minhas cadeiras.

 

Extra: Assista também parte da entrevista em vídeo, diretamente do youtube: http://youtu.be/qRkhsRgJcb0