Artigos

70 anos de militância e música

Categoria: perfis_depoimentos
Escrito por Thiago Vilela

Era dezembro de 1968. Jorge Antunes, recém-formado pela Universidade do Brasil (agora UFRJ), era um jovem professor do Instituto Villa Lobos, no Rio de Janeiro. Presidente do Centro Acadêmico da Escola de Música, foi pego de surpresa: fora promulgado o Ato Institucional 5, mais conhecido como AI-5.

“Assim que foi promulgado o AI-5, fui despedido do Villa Lobos. Comecei a buscar uma saída para ir ao exterior, e acabei saindo do Brasil no ano seguinte, porque ganhei uma bolsa para estudar em Buenos Aires. Após dois anos morando fora, meus pais disseram que ainda não havia condições políticas para voltar, então procurei bolsas em outros países”, relembra o professor. Após dois anos na Argenina, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar na Holanda e logo depois na França.

Brasília

Em 1973, surgiu finalmente uma oportunidade de voltar para o Brasil. “O prof. Orlando Leite, grande amigo meu, havia sido escolhido para a chefia do Departamento de Música da UnB, e soube que eu estava em Paris. Assim que possível ele me escreveu, pedindo que eu mandasse um currículo porque ele estava precisando de alguém para ser professor na área de composição musical. O colegiado aprovou e eu vim para cá. Fui muito bem recebido pela comunidade acadêmica”, conta.

Assim que chegou no Departamento, Antunes formou um grupo de música contemporânea, mas ressalta que precisava tomar muita cautela: “Precisávamos sempre praticar a auto-censura política, não dava pra por muito as manguinhas de fora nem se expor muito, porque senão voltaria a ser perseguido”. A equipe, que trabalhava com Experimentação Musical, chegou a fazer turnê na Europa, com apoio do Itamaraty. O professor só voltou a atuar na política alguns anos depois, no processo de redemocratização do país. “Aí sim pude colocar as manguinhas de fora de novo”, brinca.

Sinfonia das Buzinas

"Quem nos tiraniza, abusa, arrasa, azucrina; a razão resolve, buzina, Brasília, buzina!"

Em 1984, Jorge Antunes começou a ministrar a disciplina Acústica Musical, época em que ele iniciou um de seus trabalhos mais importantes. Enquanto o Brasil inteiro fazia campanha pelas eleções direitas, Antunes era o único artista musical no comitê supra-partidário pelas Diretas, e aproveitou a oportunidade para fazer o que ele sabia de melhor: produzir arte.

“Em geral, nos comícios políticos, a manifestação artística é algo marginal. Pediam para um músico tocar para animar a platéia. Eu denunciei essa fórmula e propus um movimento diferente, mais amplo (…). Propus que no Comício das Diretas em Brasília fosse apresentada uma sinfonia que eu mesmo iria escrever”.

O QG foi a própria universidade e os alunos da turma de Acústica. A partir de um levantamento feito nas ruas, os estudantes catalogaram as buzinas de automóveis, medindo a nota musical produzida. Com estes dados foi criada a Sinfonia de Buzinas. Assim, no dia 1 de junho de 1984, num comício com mais de 30mil pessoas, 177 motoristas apresentaram a Sinfonia. Com a ajuda de um coral, efeitos eletrônicos e instrumentos, a música de Jorge Antunes e poesia de Tetê Catalão ficaram conhecidas no Brasil inteiro, e fora um marco na história cultural e política de Brasília.

Confira a Sinfonia das Buzinas original: clique aqui.

Olga

Este ano o maestro ganhou uma homenagem especial. Em comemoração aos seus 70 anos de vida e 50 de carreira profissional, foi convidado a apresentar um concerto com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. O espetáculo aconteceu no último dia 6, às 20 horas na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Cláudio Santoro.

O concerto apresentou um panorama com algumas das mais importantes composições do artista, entre elas a Abertura da Ópera Olga, que contou com mais uma novidade: foram lançados no mesmo dia o CD e o DVD de Olga, registrados durante a estreia da ópera em outubro de 2006, no Theatro Municipal de São Paulo. Nos papéis principais estão Martha Herr (Olga), Fernando Portari (Prestes) e Homero Velho (Filinto Müller).

Olga, que conta a história da líder comunista Olga Benário Prestes, é uma das produções mais importantes da vida do Maestro. Antunes conta que a ópera foi começada ainda em 1987, mas só conseguiu finalizá-la 10 anos depois, pois a bibliografia adotada era muito limitada quando fazia referência aos últimos 7 anos de vida de Olga, após ter sido deportada do Brasil. “Depois que ela fora deportada pelo governo Getúlio Vargas, ela passou por um presídio, três campos de concentração, até ser morta numa câmara de gás, em abril de 1942. A história dela nos campos de concentração são muito nebulosas, e eu também sabia que ela cantava várias canções revolucionárias, sobre operários. Eu queria usar essas canções na Ópera. Solicitei uma bolsa de pós-doutorado ao CNPq, ganhei, e passei todo o ano de 1992 no exterior, fazendo essa pesquisa”, relata.

Depois de passar pelos campos de concentração, arquivos militares norte-americanos e Israelenses, e revirar todos os arquivos dos jornais de Paris, o maestro finalmente conseguiu descobrir todos os elementos que precisava para finalizar a obra. Finalizada em 1997, a Ópera só foi lançada mundialmente em 2006, pois, segundo o artista, as pessoas ainda viam com maus olhos a subversiva história da esposa de Luis Carlos Prestes. “A história de Olga, até aquele momento, 1999, 2000, ainda era considerada uma história perigosa, um momento muito recente da história brasileira. Até que a TV Globo produziu o filme Olga, e aí as coisas ficaram mais fáceis. As autoridades, diretores de teatro, começaram a ter um novo olhar sobre a história. Em 2006 o teatro municipal de São Paulo se interessou em fazer a montagem, e a estreia mundial da obra foi em outubro daquele ano”, desabafa.

Presente

Repórter: Tudo bem, você também é aniversariante, mas e se você pudesse escolher um presente para a Universidade de Brasília, qual seria? Questionado, o Maestro foi enfático:

“A UnB precisa de muitos presentes. Daria muita verba, concurso público aos professores e o tão sonhado novo prédio para o Departamento de Música, com todas as especificações técnicas (isolamento acústico etc). Este é um sonho que vivi durante toda minha estadia na universidade”.