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Um presente para a UnB

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O presente que gostaria de oferecer à Universidade de Brasília pelo seus 50 anos teria que estar em harmonia e honrar as premissas de sua fundação : "uma universidade que fundamentasse o espirito cientifico, cultural e tecnologico", na capital do país, comprometida com a “solução de problemas brasileiros e com os padrões internacionais do saber”.

Com isso em mente, detectar questões cruciais para o país e avançar em outras para pesquisar soluções são tarefas incessantes aqui na UnB, em todos os campos do conhecimento. Entretanto, há uma área que pode permeá-los e mostrar outras formas de ver e pensar o mundo, além de equacionar problemas sob outra ótica e, quem sabe, tornar-se agente de transformações. Esta área é o campo da arte.

Essa é a razão pela qual penso que, com uma política cultural na universidade, em igualdade de condições com as políticas científicas e tecnológicas, as circunstâncias ideais para este presente estariam estabelecidas. Ei-lo: empacotado em um belo projeto arquitetônico, escolhido por um júri internacional, através de um edital publico, pronto para ser edificado, o Museu de Arte da Universidade de Brasília.

Para essa edificação, seriam pensados não somente um conjunto de salas para expor o acervo permanente e um outro para mostras temporárias. Seriam necessários, também, auditórios e espaços educativos para criação e administração e para reserva técnica. Tudo isso circundado por belos jardins onde esculturas brotariam da terra.

O acervo seria constituido, principalmente, por obras da vertente construtivista: das vanguardas russas, cuja revolução se alastrou por todas as linguagens da arte e seu legado, que atravessa a Europa Ocidental, em movimentos como o De Stijl, a Bauhaus e a Ulm; depois, os Estados Unidos com o movimento que surge no Black Mountain College, ou em Chicago, além do minimal art; em paralelo (ou mesmo um pouco antes dos EUA), a Argentina, a Venezuela, o Chile, o Uruguai e o Brasil começaram, nesta linhagem, a propor questões que embasaram o concretismo e o neo-concretismo, o concreto/abstrato e, posteriormente, a arte cinética e a conceitual.

Isso significa que teriamos um acervo permanente que, a partir de pelo menos uma obra de Cézanne, alguma cubo-futurista russa e dos construtivistas Malevitch, Tatlin, El Lissitsky, Rodchenko, Gabo, Pevsner (propagadores, em sua maioria, da Facção Internacional dos Construtivistas, da Internacional Socialista), haveria em seguida Mondrian e Van Doesburg, Klee, Kandinsky, Moholy Nagy, alguns desenhos de Mies Van der Rohe e Le Corbusier e obras de Max Bill, Mavignier e Mary Vieira*. Depoisum conjunto do qual fariam parte Maldonado, Lucio Fontana, os Madi, Torres Garcia, Robert Morris, Eva Hesse, Dan Flavin, Tony Smith, Sol Lewitt, Waldemar Cordeiro, Geraldo Barros, Sacilotto, Lygia Pape, Lygia Clark, Helio Oiticica e, é claro, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Athos Bulcão. Este acervo demonstraria, claramente, a maneira pela qual esta linhagem é importante para se apreender melhor Brasília, sob um outro olhar.

Por outro lado, haveria um acervo de coleções doadas por benfeitores (quem sabe malfeitores e predadores do Plano Piloto fossem condenados a doar?), herdeiros, ex-alunos e até comodatos. Artistas fariam doações de obras de primeira linha, já que haveriam curadores internacionais que também viriam conhecer nosso Museu. Seria um Museu contemplativo também, mas faria face a uma multiplicidade de categorias por meio de exposições temporárias que proporiam leituras e fóruns de debates de artistas consagrados e artistas experimentais e emergentes sobre obras contemporâneas e modernas. Muitas dessas mostras poderiam ter projetos curatoriais de professores e pesquisadores das ciências exatas, humanas, sociais, letras, medicina, ou seja, de outras áreas que pudessem estabelecer projetos de interesse do público. Relacionar o acervo a literatura, musica, cênicas, desenho industrial, arquitetura, propor residências artisticas, ou seja, instaurar uma dinâmica própria manteria a flama acesa.

O Museu de Arte da Universidade de Brasilia seria, é claro, um museu público, na medida em que ofereceria cursos independentes dos departamentos especializados, dirigidos principalmente a pessoas com pouco ou nenhum acesso à educação do olhar. Por outro lado, haveria intensificação da pesquisa de ponta sobre questões do próprio pensamento contemporâneo da arte. Finalmente, a política criada seria para que se assumisse o papel de ser um museu universitário público, atento, especialmente, à função de pertencimento à capital do país, comprometido com os padrões internacionais do saber artístico.

A localização na Universidade de Brasília remete ao cruzamento dos eixos, ao mesmo gesto primário inaugural: aqui, cidade/universidade. Para a cidade, nossos urbanistas, arquitetos e artistas foram nutridos pela ideologia utópica do eixo do movimento construtivista internacional e desejavam que a sociedade pudesse encontrar, no ambiente criado pela arte, o meio que melhor lhe conviria à vida. O desejo maior era o de integrar e revolucionar, pela linguagem da arte, a sociedade e o habitat humano, pela “criação de um mundo novo, produtivo, justo e feliz”, e, transferir “o imemorial anseio de justiça social do plano utópico para o plano das realidades inelutáveis”, segundo Lucio Costa.

Para a Universidade de Brasilia, inaugurada há 50 anos, dois anos depois da capital, já abarcando o Instituto Central de Artes, o cruzamento do seu eixo com o da cidade entrelaçou ideias, ideologia, conceitos e vivência. A proposta pedagógica elaborada para a arte envolveu um quadro docente de excelência – assim como para os outros Institutos e Faculdades – convocado para implantá-la. Pelo esforço coletivo, iniciou-se a criação de uma Bauhaus brasileira. Ceifada, 27 anos depois foi fundado o Instituto de Artes, resguardado o espaço da utopia.

A arte concretiza mundos, cria seu proprio lugar, novo, original, utópico.

E isso não pode ser esquecido. Por isso, meu presente, o Museu de Arte da Universidade de Brasilia, seria responsavel em ser o guardião seguro e digno desse acervo e desse legado.

*A artista Mary Vieira ministrou um curso de extensão no então Departamento de Desenho, em 1987. Na ocasião, convidada pelo reitor Cristovam Buarque, criou um protótipo para o troféu Josué de Castro, que seria oferecido para o melhor trabalho sobre a fome. Esta peça poderia ser a primeira a ser realizada no jardim de esculturas do Museu de Arte da Universidade de Brasilia, principalmente pela sua conotação: fome, não só de comida, de cultura também.