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Como os pioneiros de 62

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Eu não era nascido na inauguração da UnB. Mas ao ver fotos, relatos e histórias da época, é inevitável a tentação de imaginar como devem ter sido os primeiros tempos daquela que hoje é uma das maiores universidades da América Latina. Pouco mais de 400 estudantes, área construída quase restrita a atual Faculdade de Educação e o auditório Dois Candangos como o maior local para reuniões, com espaço para cerca de 200 pessoas.

Gestores, professores, técnicos e estudantes dividindo o reduzido espaço físico e as dificuldades advindas da estrutura ainda em construção, mas com expectativas incomensuráveis de tornar-se uma universidade que revolucionasse o conceito do ensino superior no Brasil. Assim como a cidade que nascia, a Universidade de Brasília estava destinada a grandes realizações. Penso que deveria ser esse o sentimento dos idealizadores, fundadores e primeiros membros da comunidade acadêmica da UnB.

Guardadas as proporções, ousaria dizer que os novos campi da UnB revivem, em parte, aquele momento. Se, por um lado, os novos campi são unidades acadêmicas, assim como todas as demais que compõem a UnB atual (com a diferença de situarem-se a alguns quilômetros do campus central), o cotidiano parece similar ao que lemos sobre os primeiros anos da UnB. Pouco espaço e muita poeira, mas jovens estudantes entusiasmados com as possibilidades de futuro que a universidade representa, e servidores, docentes e técnicos, descobrindo o prazer de construir uma universidade.

Aqui na FUP (Faculdade UnB Planaltina) parece que vivemos uma dimensão daquele momento, um microcosmos de uma grande universidade. Dadas as características interdisciplinares dos cursos, os cem docentes lotados aqui representam uma diversidade considerável do conhecimento humano alocado nas universidades. São biólogos, geólogos, pedagogos, filósofos, economistas, físicos, químicos, administradores, matemáticos, sociólogos, historiadores, ecólogos, engenheiros, antropólogos, agrônomos entre outros, que convivem sob o mesmo teto.

Mais que isso, fazem refeições na mesma mesa e partilham os mesmos laboratórios, salas de aula e órgãos colegiados, tomando decisões conjuntamente todos os dias. Os servidores são, acima de tudo, parte da comunidade de Planaltina, e encontram aí um motivo a mais para contribuir na construção daquela que, além de local de trabalho, é também a sua escola e a de seus filhos. As pessoas se conhecem pelo nome, e a comunidade circula no campus sem cerimônia. Uma grande universidade com jeito de escola pequena.

O convite à elaboração desse artigo traz consigo a ideia de um presente de aniversário à UnB. O que poderia desejar à UnB nos seus 50 anos?

Que ela siga o destino para o qual foi concebida, desejada e sonhada: ser uma universidade plural, transdisciplinar, humana, atenta às necessidade do país, da cidade e da comunidade que a abraça; ser uma escola formadora de cientistas, pensadores, gestores, políticos, líderes, mas sobretudo de cidadãos, de gente ("fina, elegante e sincera") para uma sociedade tão carente disso; ser um espaço educador a todos que com ela se relacionem, daqueles que nela trabalham e estudam àqueles que apenas a visitem.

Que a UnB cresça ainda mais, que esteja sempre em movimento, mas sem perder o espírito daquilo que um dia foi. Que quando vier a ser a maior universidade do país, não esqueça que é, na essência, uma escola. E escolas são feitas por gente para educar gente. A educação, sob esse enfoque, pode sim mudar um país. Ao que consta, na inauguração, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira já sabiam disso. De presente de 50 anos, desejo que se revigore a luta pela realização deste destino.