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Emanuel Araújo: a tradição da UnB

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A trajetória do professor Emanuel Araújo na Universidade de Brasília é revivida em artigo escrito por José Otávio Guimarães e André Leme.

Cidadão honorário desta capital, professor emérito da UnB, Emanuel Araújo (1942-2000) chegou ao Planalto Central no primeiro ano de funcionamento da Universidade. Veio a convite de Agostinho Silva, que, desde 1960, colaborava com Darcy Ribeiro no planejamento e criação da nova instituição de ensino superior.

Formado em Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia, Emanuel, nesse início dos anos 1960, interessava-se pelas origens do teatro grego e cogitava aprofundar seus conhecimentos com um mestrado em Atenas. O professor Agostinho interferiu nesses planos apontando-lhe a existência do recém-fundado Centro de Estudos Clássicos (CEC) da UnB. Garantiu-lhe que, aqui, disporia de uma biblioteca “comparável às melhores da Europa”. Emanuel não se decepcionaria. Na nova universidade, encontrou, “extasiado, os livros, as revistas, as enciclopédias, as coleções de fontes que estava acostumado a ver somente em citações de pé de página”. Tal acervo, um dos melhores da América Latina à época, ainda se encontra disponível nas Coleções Especiais de nossa Biblioteca Central.

O CEC era criação de Eudoro de Souza, professor português, ex-aluno de Heidegger, que fora convidado pelos fundadores da UnB para conceber uma pós-graduação em Estudos Clássicos no Planalto Central. Esse centro funcionou durante sete anos, tendo formado uma geração de helenistas e latinistas brasileiros do calibre de Jair Gramacho, José Xavier de Mello Carneiro, João Ferreira, João Evangelista, Fernando Bastos, Dinah Fernandes Brognoli, Ordep José Trindade Serra, Antonio Telmo Carvalho Vitorion, Suetônio Valença, além do próprio Emanuel.

As primeiras pesquisas acerca das origens do teatro grego levaram Emanuel muito mais longe. No CEC, ele alargou seus interesses e defendeu dissertação de mestrado sobre as relações entre o Oriente Próximo e o Egeu e uma tese de doutorado intitulada O êxodo hebreu (1970). Durante sua carreira, traduziu diversas fontes importantes para o estudo da Antiguidade, como o Papiro de Ramesseum (século XX a.C.), Os trabalhos e os dias, de Hesíodo (séc. VII a.C.), e a obra de Plutarco, Sobre Ísis e Osíris (séc. I d.C.).

Nesse vasto universo do mundo antigo, sua maior paixão foi o mundo egípcio e ele acabou por se tornar um dos três principais egiptólogos brasileiros. Em 1968, já como professor do Departamento de História da UnB, Emanuel ofereceu um curso de língua egípcia aos alunos da graduação. Foi “uma experiência inesquecível e comovente” – escreveu ele – “sentir a alegria dos alunos ao verificarem que podiam ler, que de fato liam, aquelas centenas de signos até então misteriosos para eles”. Seu trabalho sobre a terra dos faraós culminou na publicação, pela Edunb, de Escrito para a eternidade, uma vasta coletânea de textos egípcios, por ele traduzidos e comentados, obra única do gênero no país.

O recrudescimento da repressão e as mudanças na política universitária do regime militar levaram à extinção do CEC em 1969 e à interrupção da atividade acadêmica de diversos professores. Em 1971, Emanuel é obrigado a deixar a UnB e se instalar no Rio de Janeiro, onde desenvolve nova atividade intelectual. Colabora com Antônio Houaiss, que lhe revela os segredos da arte da editoração. A partir daí, trabalha em diversas casas editoriais e coordena o setor de editoração do CPDoc da FGV e do Arquivo Nacional. Durante esses anos, escreve e publica A construção do livro (1986), que se tornaria referência para toda uma geração de editores brasileiros; segundo o próprio autor, uma complementação prática aos Elementos de bibliologia de Houaiss. Reintegrado à UnB em 1989, essa experiência carioca é incorporada à universidade por meio da atividade de Emanuel como diretor da Editora e de seu Conselho Editorial, de 1992 até sua morte.

Homem multifacetado, ao retornar à UnB, Emanuel apresenta ainda o resultado de mais de uma década de trabalho dedicado ao estudo do Brasil colonial: O teatro dos vícios (1983), livro pioneiro no âmbito da história das mentalidades, que desvenda, na longa duração, a permanência de estruturas de poder na relação entre o Estado e a sociedade civil.

Tive o prazer de conviver com Emanuel Araújo e sua esposa, professora Sonia Lacerda, na área de História Antiga do Departamento de História da UnB. Esse encontro permitiu, em âmbito mais restrito, a retomada da antiga experiência do CEC de formar estudantes interessados em cultura clássica. Enfatizando a interdisciplinaridade e as diferentes apropriações da Antiguidade, criamos o Núcleo de Estudos Clássicos (NEC). Por mais de dez anos, esse núcleo procurou manter viva a tradição pedagógica e de pesquisa representada por intelectuais como Eudoro e Emanuel. André Leme, que assina essa coluna comigo, é testemunha dessa tradição. Aluno de graduação e depois de pós-graduação no Departamento de História, tornou-se, a partir de 2009, seu professor. Sua experiência não é única. Outros alunos formados por Eudoro, Emanuel e Sonia são hoje meus colegas. O exemplo de Emanuel nos permite dizer que a nossa jovem universidade de 50 anos possui já uma tradição!

José Otávio Guimarães e André Leme são professores do Departamento de História da Universidade de Brasília