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A primeira assembléia a gente nunca esquece

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No final da década de 70, o país vivia sob forte repressão da ditadura militar. Na UnB havia um clima de medo e tensão. As reuniões no campus estavam proibidas. Havia espiões espreitando corredores e salas de aula, prontos para denunciar. Todos suspeitavam de todos. Só nos abríamos com pessoas de muita confiança. Professor denunciado respondia a IPM, podia ser demitido e teria dificuldade para encontrar novo trabalho. Todo cuidado era pouco. Na UnB, os professores eram permanentemente vigiados. O medo estava impregnado em cada um. A face mais cruel da repressão era a desconfiança generalizada. Nessas circunstâncias, era quase impossível se organizar resistência fora da clandestinidade.

Receoso, eu caminhava pelo corredor superior do mezanino do ICC-Su. De onde estava, podia observar o Anfiteatro 11 e avaliar o clima político no local. Ali deveria acontecer a primeira reunião de docentes no campus da Universidade de Brasília, a fim de criar uma associação de docentes, até então proibida. Todos os pedidos de um local no ICC para fazer a reunião haviam sido negados pela reitoria. O reitor era um capitão-de-fragata da Marinha brasileira, assessorado por um coronel do Exército. Sozinhos, administravam a UnB com mão de ferro, decidiam tudo. Órgãos colegiados não funcionavam. Quando existiam, era só fachada, não detinham nenhum poder. Entidades de classe estavam proibidas, greves eram violentamente reprimidas. Eleições no campus, nem pensar.

Eu acabara de defender meu doutorado nos Estados Unidos e fui indicado pelos colegas diretor de minha faculdade. Isso me deixava na corda bamba. Meu ativismo político poderia prejudicar minha unidade. O reitor-capitão era senhor absoluto do campus, apoiado por forte serviço de informação. Ele não tinha nenhum pudor em perseguir quem o contrariava. Sabia de tudo, acompanhava cada passo dos professores, alunos e funcionários. Tinha informações até sobre nossas vidas privadas. Arapongas travestidos de alunos eram misteriosamente ‘transferidos’ para todas as unidades, sem passar pelo vestibular ou colegiados. A presença deles constrangia o ambiente acadêmico.

Era difícil organizar entidades de resistência política. As pessoas evitavam contatos, se fechavam. A paúra se generalizara. Discretamente, um grupo mais determinado distribuiu panfletos convocando a primeira assembleia de professores no campus. Não tínhamos ideia se haveria número suficiente para legitimar a nova entidade. Na USP, os professores haviam recém criado uma associação docente. Isso nos animava. Era imperativo criar uma entidade similar na UnB. Mas, em outras universidades federais, iniciativas semelhantes fracassaram. Professores foram perseguidos e demitidos. Era preciso coragem para dar o primeiro passo.

Havíamos nos reunidos clandestinamente em casas de alguns de nós. Sempre à noite, para não chamar a atenção. Éramos apenas dez ou doze, em uma universidade que naquela época tinha menos de 500 professores. Uma turma corajosa. A primeira reunião foi na casa do prof. João Hirson, da Geologia. A segunda, do pintor Douglas Marques de Sá, do Desenho. A seguinte, na casa do Leandro Amaral, da Economia. E assim as reuniões foram se sucedendo. Combinávamos estacionar nossos carros em quadras diferentes e seguir a pé até o local do encontro, para não deixar pistas.1 Contando hoje, parece lenda.

Naquela manhã, passei assoviando no mezanino sul, fingindo olhar para o céu. Mas, com o canto dos olhos, verifiquei que outros professores se aproximavam. Na porta do anfiteatro havia um aglomerado de funcionários. Eram todos informantes. Nós conhecíamos alguns, déramos até apelidos a eles: tinha o Arroz de festa, o Aqui agora e outros. A presença ostensiva deles nos intimidava. Percebi que, como eu, outros professores espiavam disfarçadamente, como quem não quer nada.

Alguém tomou coragem e se dirigiu ao Anf 11. Como uma palavra de ordem, outros fizeram o mesmo gesto. Fomos chegando, nos cumprimentando. Os que espreitavam de longe tomaram coragem. Gente que ninguém esperava, apareceu. Logo, éramos 20, 30, 50 determinados. Como num passe de mágica, aquele ato simples nos revelou que a UnB era nossa casa, nos pertencia. Vencendo o medo, demos então início à primeira assembleia de docentes no campus da UnB, desafiando abertamente o autoritarismo.

Havíamos dado um passo importante para conquistar a liberdade no campus. A partir daquela assembleia, não tínhamos mais receio de mostrar a cara. Da clandestinidade para a liberdade. A associação docente foi criada dois meses depois, em uma assembleia histórica, com mais de 100 professores, na Associação Comercial do Distrito Federal. O colega Fausto Alvim, da Matemática, foi escolhido primeiro presidente.

Mas, na UnB, a repressão continuou ainda por muitos anos conforme mostrou reportagem recente. A minha vida acadêmica se tornou um inferno. Fui impedido de comparecer a eventos no exterior e realizar aqui dois congressos internacionais. Minha unidade passou a ser sistematicamente boicotada. Minha situação acadêmica na UnB ficou insustentável. Acabei me demitindo em 1981 e viajando para o exterior. Outros ficaram e seguiram resistindo. Poucos anos depois, Cristovam Buarque foi o primeiro reitor livremente eleito.

Aquela reunião heroica não sai de minha memória. Lembro-me dela toda vez que busco o fato que mais me marcou nos 40 anos de vida dedicados à UnB. É possível que nomes, dados e datas não sejam precisos, faz muitos anos. Além disso, tudo era primeiro. Como na música de Adoniran Barbosa, ou o anúncio do sutiã, a primeira assembleia, a gente nunca esquece.

1. Além dos citados, frequentavam as primeiras reuniões clandestinas os professores Vladimir Carvalho, José Caruso Moresco Danni, J. Onildo Marini, Luiz Carlos Coutinho, Mauricio Azeredo, José Carlos Balthazar e mais alguns poucos. Muitos se aposentaram, mas outros continuam até hoje dando aulas na UnB.