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Que presente a Faculdade de Ciências da Saúde gostaria de ofertar à UnB na comemoração dos seus 50 anos?

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”A constante fundamental é meu profundo descontentamento com a universidade tal qual é (...). A tarefa de renovação universitária é talvez o mais pungente desafio com que se defrontam os pensadores do mundo moderno.” In: RIBEIRO, Darcy. A Universidade Necessária, São Paulo, Editora Paz e Terra, 1969.

Com um olhar sobre as palavras de Darcy à época da criação da UnB, e observando a trajetória percorrida pela nossa Universidade, constatamos que o desafio continua posto.

A interrupção do sonho de Darcy e Anísio Teixeira, consequente ao período da ditadura militar, impediu que a construção de uma nova Universidade se desse de maneira livre e autônoma. A conjuntura fez com que a Universidade construísse focos de resistência, mas ao mesmo tempo se enquadrasse no modelo tradicional e autoritário vigente. A despeito da resistência, o peso do legado deste período continua, de uma forma ou outra, sobre nossos ombros. A reforma sonhada por Darcy e Anísio permaneceu estagnada.

A redemocratização do país permitiu a retomada do desafio de renovação, e houve ganhos. No entanto, as marcas deixadas pela ditadura e o peso da burocracia acumulado nos últimos anos não permitiram o fluir do sonho.

A todo momento nos deparamos com a falta de liberdade para exercer a autonomia. Ao contrário, diariamente somos vítimas de processos acadêmicos e administrativos burocratizados que paralisam nossas demandas. Somado a isso há, ainda, a judicialização excessiva dos atos da comunidade acadêmica, ao ponto de que governantes, professores e funcionários empreendedores terminem envolvidos em processos judiciais kafkianos, reservados àqueles que decidiram ousar e praticar o verbo executar.

É necessário transformar o modo de atuação da Universidade, retirando de suas práticas aquelas que são próprias de uma repartição pública, que não coadunam com a prática do ensino, pesquisa e extensão, próprias da missão universitária.

Judicializaram a autonomia universitária. Estamos na contramão da história. Os criadores da Universidade de Brasília fizeram esse diagnóstico há 50 anos ao criarem a Fundação Universidade de Brasília para que sua estrutura jurídica pudesse libertar a UnB das amarras burocráticas do estado.

“A UNB foi concebida para se tornar a melhor experiência educacional da América Latina. Pretendia-se gerar através dela uma comunidade de pesquisadores capazes de diagnosticar problemas e oferecer soluções à sociedade brasileira... uma universidade autônoma e se pretendia que nela ninguém fosse discriminado por convicções políticas ou religiosas” NUNES, Clarice. “Universidade Pública: o que foi silenciado?” in TEIXEIRA, Anísio. A universidade de ontem e de hoje. Organização e introdução de Clarice Nunes. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998.

Permanecendo o caráter restritivo, nos tornamos reféns das influências externas nocivas à concretização dos sonhos de renovação e incapazes de oferecer soluções à sociedade brasileira. Passamos a ser meras engrenagens de um processo burocrático que vira as costas para a comunidade que nos financia.

Com as amarras atuais, como incentivar nossos alunos a serem inovadores e empreendedores? Como devemos interagir com a sociedade brasileira que nos procura em busca de soluções, se tudo que podemos oferecer sofre algum tipo de restrição ou proibição?

E qual é a universidade necessária para o século XXI?

Para conseguirmos posicionar a Universidade de Brasília entre as maiores universidade do Brasil e do mundo necessitamos de uma UnB autônoma e livre.

Livre para incluir novas formas de pensar; livre para incluir as mais diversas formas de conhecimento; livre para reconhecer as diferentes trajetórias dos indivíduos; livre para interagir com o mundo exterior, público e privado; livre para sonhar um futuro mais acolhedor para sua comunidade; livre para trilhar novos caminhos, respeitando as vocações individuais; livre para incluir novas tecnologias ao ensino; livre para desconstruir o modelo tradicional de currículos profissionais; livre para exigir qualidade e competência de sua comunidade; livre para exercer a plenitude da autonomia; livre para ousar.

Isso não implica em não prestarmos contas de nossas ações. Ao contrário, autonomia com qualidade, que possui metas bem definidas e gera resultados, requer grande responsabilidade e compromisso de toda a comunidade acadêmica.

Portanto, o melhor presente para a Universidade de Brasília na comemoração do seu 50º aniversário seria receber, definitivamente, sua tão sonhada autonomia.

* Agradeço a todos os colegas da FS que contribuíram para essa reflexão.