Artigos

Ser professor

Categoria: Artigos
Escrito por Dioclécio Campos Júnior

O dia do professor não é mera data destacada no calendário para simples eventos comemorativos. Vai muito além. Expressa o respeito pelo trabalho singular de alguém a quem cabe, anonimamente, missão transformadora no âmago da sociedade humana.

Ser professor é entregar-se de corpo e alma à mais profícua relação de alteridade que se pode conceber. É dedicar a inteira existência aos predicados educacionais que promovem o bem comum. É vislumbrar universo de estimulação ideal em que a criatura humana seja o desabrochar incessante das mais diversas florações que constituem a inigualável riqueza das originalidades de cada qual. É aprender a ensinar com quem aprende a aprender.

É reproduzir, no grupo social em que atua, o modelo pedagógico natural do ninho afetivo familiar, a escola mais eficaz que a humanidade já frequentou em todos os tempos. É ouvir atentamente, falar com distinção, pesquisar com deleite, transmitir a todos, assistir com desvelo, apoiar à exaustão. É cultuar exemplarmente os preceitos da mais límpida substância moral que está na gênese das relações edificantes da sociedade humana.

O professor de hoje é o mestre de antanho cujo coração vibrante já pulsava no cerne dos textos primevos, impregnando-os com a mais fecunda crença no potencial evolutivo dos seres humanos que lhe era dado promover. É o educador de excelência, criativo na forma, universal no conteúdo, inarredável na preciosa vocação de converter o indivíduo em pessoa, conduzindo-a ao longo do radioso caminho humanista que culmina na cidadania plena. É quem se aplica ao fascinante desafio de estimular a cognição infantil ou à grandiosa dimensão da docência universitária.

De um extremo ao outro, transbordam-lhe os atributos de um ente nascido para cumprir tarefa de nobreza sem par, identificada com a imanência ética que dá sentido à alma mater da espécie humana. Só ele tem a refinada percepção de que, para o exercício das ações educativas verdadeiras, há que combinar, em doses precisas, o saber e a sabedoria, valores de cujo equilíbrio origina-se o caráter referencial que o distingue.

Por todas essas razões, o direito fundamental à educação está claramente consignado nas cláusulas constitucionais. Não pode ser lido apenas como sinônimo de acesso à escola. É, acima de tudo, a reverência com a qual a sociedade magnifica o papel do professor, entendendo a primazia de tão valioso personagem para a concretude dos sonhos que iluminam o horizonte social, donde surgem, quais floridos acenos, os legítimos anseios de progresso igualitário, portanto dignificante da conquista civilizatória.

O professor encarna, com inefável brilho, a perspectiva de garantir ao indivíduo, durante o período de aprendizagem, o que há de mais sublime no conceito de formação humana. Identifica pendores, reconhece talentos, estimula inovação, desperta iniciativa, ampara criatividade, propicia interação, nutre intelectos, ensina a pensar. E por cultivar a melodia da simplicidade como linguagem própria, seu poder de comunicação semeia, na fértil estrutura mental do aluno, o construtivo germe da dimensão educacional que se incorpora definitivamente à personalidade em gestação.

Nesta data em que se homenageia o professor impõe-se reflexão pertinente. Se o mérito de tão complexa e despojada profissão não tiver o reconhecimento a que faz jus, a precariedade cultural da população prevalecerá pesadamente sobre a sua riqueza intelectual embrionária que não terá como se desenvolver.