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Memória passada a limpo

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Simpósio relembra e debate a repressão sofrida pela Universidade de Brasília durante o período da ditadura militar.

Foto: Mariana Costa/UnB AgênciaFoto: Mariana Costa/UnB Agência

"Se a universidade não produzir cabeças abertas e pensantes, então não há razão para existir." Esta foi uma das colocações do historiador argentino Pablo Posi, na palestra de encerramento, na tarde desta quinta-feira, 25 de outubro, do Simpósio UnB 50 Anos - pelos caminhos da memória, esquecimentos e lembranças da ditadura militar na UnB. O professor da Universidade de Buenos Aires, que conta com 350 mil alunos, compartilhou sua visão sobre a perseguição sofrida pelo meio acadêmico argentino que, assim como o Brasil, enfrentou os chamados anos de chumbo do governo militar.

Organizado pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) e pelo Núcleo de Estudos para a Paz (NEP), o simpósio faz parte das comemorações do cinquentenário da Universidade e busca reconstruir, a partir das experiências cotidianas de professores e ex-alunos, parte da história da UnB ocorrida durante o regime militar. Além de Pablo Posi, participaram do encerramento do simpósio a deputada Maninha (PSOL/DF) e Gilney Viana, integrante da Comissão Memória e Verdade.

Para Posi - que vê os direitos humanos como uma questão política, mais do que legal -, a universidade argentina sempre foi alvo da ditadura. "O contato intenso que todos os departamentos da universidade tinham com as camadas mais pobres da população criava um vínculo político entre a academia e a sociedade e alimentava os questionamentos e reflexões."

O historiador apresentou um dado: dentre os 30 mil desaparecidos durante a ditadura militar de 1976, 21% eram estudantes universitários. Mariana Costa/UnB Agência O reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, fez a fala de encerramento do simpósio, destacando sua importância no ano em que se comemora o jubileu da Universidade de Brasília. Militante dos direitos humanos, José Geraldo lembrou que a UnB foi a única universidade do Brasil a sofrer intervenção direta do governo militar.

"A redemocratização da UnB se deu juntamente com a redemocratização do Brasil", disse o reitor, que instalou, em agosto, a Comissão Memória e Verdade Anísio Teixeira, em homenagem ao educador e co-fundador da Universidade Brasília, morto em circunstâncias misteriosas. "Mais do que a morte de Honestino, Anísio e tantos outros", completou o reitor, "aqui na universidade mutilou-se um projeto".

As comemorações do cinquentenário da UnB suscitaram uma série de reflexões sobre o papel da Universidade, sua história e seu futuro. Foram realizados seminários, debates, lançamentos de livros, exibições de filmes, exposições e uma série de outras atividades, como o Festival Latino-Americano e Africano de Arte e Cultura (FLAAC). As comemorações se estenderão até abril de 2013.