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A ousadia na criação da UnB

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Quando o Darcy voltou ao Brasil para ser operado de câncer no pulmão, em dezembro de 1974, levei o Juscelino para visitá-lo no hospital, no Rio. Quando saímos, o Juscelino me contou que, quando o Darcy estava tentando criar a Universidade de Brasília, juntamente com o Anísio Teixeira, ficava insistindo com o Victor Nunes Leal para marcar uma audiência com ele, presidente JK.

Certo dia, estava ele fazendo a barba, tranquilamente, quando o Victor chegou com o Darcy, que mal o cumprimentou, e começou a falar da necessidade de criar a Universidade de Brasília. "Vera, ele falava tão rápido, tão embolado que eu não entendi nada."

Relendo o livro Confissões, do Darcy, encontrei este trecho: "Duas adesões foram estratégicas para a criação da Universidade de Brasília: a de Victor Nunes Leal, meu colega de faculdade, que era o chefe da Casa Civil de JK, e a de Cyro dos Anjos, meu conterrâneo, que era o subchefe. Os dois começaram a trabalhar JK para a ideia, encontrando resistências. Ressonâncias, creio eu, das implicâncias de Israel Pinheiro, edificador de Brasília, com a obsessão de criar Brasília sem universidades e sem fábricas para evitar agitações e greves junto à cúpula do poder".

"Acabei entrando, eu mesmo, no assunto com JK, diretamente. Foi um desastre. Meu entusiasmo era tão grande e falei de forma tão atabalhoada que o assustei. Fui mais feliz quando voltei ao assunto de forma tranquila, depois de volta de JK da viagem aos Estados Unidos, onde Victor mostrou a ele que os pais fundadores daquela nação tiveram a preocupação fundamental ali implantar universidades".

Fiquei recordando os diálogos do Darcy com o Anísio Teixeira. Ele, Anísio, aquela figura tranquila, falando devagar e baixo as coisas mais lúcidas e sensatas possíveis. O Darcy, muito brilhante, pensando mais rápido que falava, embolando as palavras e parecendo uma metralhadora. Ambos, muito competentes. Mas, cada um com uma formação diferente, um enfoque desigual. Como se enxergassem o mundo através de janelas distintas. Grandes e altíssimas janelas.

A luta do Darcy para que a Universidade fosse criada foi uma loucura. Quando o projeto estava para ser aprovado na Câmara dos Deputados, já na época em que o Jânio Quadros era presidente, ele não podia ver um deputado sem tentar convencê-lo. Até que, por ocasião da renúncia do presidente Jânio Quadros, aproveitando a perplexidade que tomou conta dos congressistas, ele conseguiu pôr na ordem do dia, na Câmara dos Deputados, o projeto de lei de criação da UnB, que foi aprovado.

Assistir ao nascimento da UnB foi um dos momentos mais belos da minha vida. Nessa época, eu trabalhava no Ministério da Educação com o Lauro de Oliveira Lima e coordenava a alfabetização de adultos, método Paulo Freire, no Brasil inteiro, por meio das inspetorias seccionais. Mas o Darcy não me dava sossego, queria que eu largasse tudo e pegasse uma carona no seu sonho. Acabei fazendo os dois serviços, o meu e o dele.

Quando o Oscar iniciou o projeto da construção, o Darcy dava palpite o tempo todo, com a cara mais feliz do mundo. Dava a impressão de que ele antevia os estudantes subindo e descendo aquelas rampas dos primeiros prédios, que seriam modestos. Os professores chegando, alguns vindo do exterior onde trabalhavam e ganhavam três vezes mais do que receberiam aqui. Todos na maior empolgação, influenciados pelas palavras e o idealismo do Darcy.

Veio o golpe militar, o Darcy partiu para o exílio. Quando veio a crise na universidade e os 200 professores foram demitidos, escrevi ao Darcy uma longa carta, relatando tudo. A resposta veio numa carta emocionada que terminava assim: "Mas dói, querida, ver de longe, inerme, atacarem como cães açulados a minha casa, a minha família, meus irmãos, meus filhos - únicos que tenho - sem nada poder fazer.

"Por cima de tudo isso vem, agora, o sobregolpe que torna a luta ainda mais difícil, embora alargue extraordinariamente o círculo dos que são chamados a combater a boçalidade. Hoje, a luta na UnB é a luta do Brasil pelo controle do próprio destino. Na verdade, sempre foi assim. Nós é que não nos apercebíamos de quanto uma bandeira plantada no futuro para obrigá-lo a antecipar-se a si mesmo, como a UnB, é ato de rebeldia destinado a chamar sobre si próprio toda a fúria do passado que se encarniça no esforço para perpetuar-se."


VERA BRANT - Escritora, é autora do livro Darcy, da Editora Paz e Terra