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Como nasceu a Universidade de Brasília

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Em 1959, o Darcy Ribeiro, que era vice-diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos- INEP- no Ministério da Educação, cujo diretor era o professor Anísio Teixeira, sonhou uma Universidade Brasileira que fosse a mais importante da América Latina. E insistia com o Presidente Juscelino para que a mesma fosse criada em Brasília.

Após muita insistência, e graças ao apoio de Victor Nunes Leal e de Cyro dos Anjos, respectivamente chefe e sub-chefe de gabinete do Presidente Juscelino, Darcy foi encarregado do planejamento da Universidade de Brasília.

Organizou uma equipe de uma centena de cientistas, pesquisadores e pensadores, a maioria deles integrantes dos quadros da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência- SBPC.

Contribuíram para planejamento e concretização da UnB: Em primeiríssimo lugar, Anísio Teixeira- que sonhava fazer dela uma universidade de quarto nível, só dedicada à pós-graduação- e Oscar Niemeyer.

Colaboraram também, desde a primeira hora:

Almir de Castro, Alcides da Rocha Miranda. Almeida Júnior, Antônio Cordeiro, Jayme Tiomno, Eduardo Galvão, Jacques Danon, José Leite Lopes, José Goldenberg, Júlio Pudles, Leopoldo Nachbin, Mário Pedrosa, Mário Schemberg, Pompeu de Souza, Roberto Salmeron, entre muitos outros.

Em 1960, quando da inauguração de Brasília, Juscelino Kubitschek enviou ao Congresso Nacional sua mensagem Presidencial solicitando a criação da Universidade de Brasília. O projeto, pronto, foi remetido ao

Congresso Nacional, para ser aprovado.

Em 1961, Jânio Quadros, empossado na Presidência da República, confirmou Darcy na direção da Comissão de Estudos da Universidade de Brasília.

Darcy procurava um por um dos deputados, tentando convencê-los a votar a favor do projeto.

Até que, por ocasião da renúncia do Presidente Jânio Quadros, aproveitando a perplexidade, aproveitando a perplexidade que tomou conta dos congressistas, ele conseguiu colocar na ordem do dia, na Câmara dos Deputados o projeto de Lei de criação da UnB, que foi aprovado.

Quando o Oscar iniciou o projeto da construção, foi uma maravilha. O Darcy dava palpite, o tempo todo. A impressão era de que ele já antevia os estudantes subindo e descendo aquelas rampas dos primeiros prédios, que seriam modestos. Depois, dizia ele, vamos construir o Minhocão, uma extensão imensa de prédios, com as salas de aula, sala disso, sala daquilo, e ia falando. O Oscar ficava olhando, enternecido, orgulhoso de poder ajudar o amigo naquele grande sonho que iria beneficiar os estudantes do Brasil, preparar a juventude para um futuro brilhante.

Foi emocionante acompanhar o nascimento da UnB.

No início, pequenos prédios, um para a Reitoria, outros para o Departamento de Letras, Departamento de Ciências Humanas, Biblioteca, Departamento de Arquitetura, Física, Matemática e mais uns poucos.

Tudo era feito na maior rapidez. Em poucas semanas, mais prédios eram levantados e ocupados.

Era poeira que não acabava mais. Quando chovia, era lama pura. Todos enlameados e achando tudo ótimo, uma maravilha.

O Darcy dizia, com todo o orgulho, quando saia do Ministério: “Se me procurarem, diga que eu estou no Campus”.

Mas eu achava que ela estava era no Matus.

A Reitoria, muito simples, foi instalada em frente ao auditório “Dois Candangos”, assim chamado em homenagem aos dois operários que morreram na obra, durante a construção.

O estrondoso Darcy falando, dando ordens, ensinado, brigando, brilhando com o seu talento indiscutível.

A figura carinhosa do nosso Anísio Teixeira, com os seus passos leves e voz mansa, dizendo frases brilhantes.

No Instituto Central de Artes eram encontrados os meus amigos: Alcides da Rocha Miranda, Alfredo Ceschiatti, Glênio Bianchetti, Athos Bulcão, Carlos Scliar, Cândida Sardinha, Zezé, Marília Rodrigues, Zanine, Léo Desheiner, João Evangelista, Hugo Mund, Amelinha e Klaus.

No Instituto Central de Letras, Fritz Teixeira de Salles, Oswaldino Marques, Heron Alencar, Nelson Rossi, Eudoro, Jair Gramacho, Cyro dos Anjos, Yvonne Jean, Élcio Martins, Maria Luíza Roque, Pompeu de Souza, Santiago Naud e Nadja.

O genial Oscar Niemeyer dirigindo o Instituto de Arquitetura com sua eficiente equipe: Edgard Graeff, João Filgueiras ( Lelé ), Italo Campofiorito, Glauco Campello, Fernando Burmeister, Abel Acioli, Elvin Dubugras, Alex Chacon, Adeildo Viegas, Clementina Duarte, Pessina, Leal, Armando Hollanda, Sérgio e Mayume, Oscar Kneip.

No Instituto Central de Ciências Humanas: Victor Nunes Leal, Machado Neto, Lincoln Ribeiro, Sepúlveda Pertence, José Guilherme Villela, Alysson Mitraud, Edgar Matta Machado, Waldir Pires, Eduardo Ribeiro, Jairo Simões, Hélio Pontes, Luiz Fernando Victor, Mafra e José Maurício, Geraldo Laércio, José Maria Almeida Martins e Sebastião Rios.

No Instituto de Física: Roberto Salmeron, Jayme Tiomno.

No Instituto Central de Química: Jacques Danon, Isaías Raw, Júlio Puddles.

No Instituto Central de Matemática: Leopoldo Nachbin, Elon Lima, Manfredo Perdigão do Carmo, Djairo Figueiredo, Marco Antônio Raupp, Geraldo Ávila, Célio Alvarenga, Antônio Conde, Silvio Machado e Edson Júdice.

Na Antropologia: Eduardo Galvão, Carlos Moreira e Marina Vasconcelos.

Jair Gramacho ensinando grego. O professor Agostinho da Silva dirigindo o Centro de Estudos Portugueses.

Na Biblioteaca: Clara Galvão, Édson Neri e Abner Vicentini.

Na Reitoria: Rosa Maria, Almir de Castro, Carlos Augusto Falcão, Oswaldo Gusmão, Luiz Bicalho, Landau, Luiz Zaidman, Edna e Fortunato.

Na Editora, Artur Neves.

E o Eustáquio Toledo, na Faculdade de Tecnologia.

Na Psicologia: Martucelli, Isaías Pessotti, Rodolfo Azzi e Mariana Alvim.

No Instituto de Teologia, o nosso querido Frei Matheus.

Paulo Emílio Salles Gomes e Nelson Pereira dos Santos, com o Curso de Extensão Cultural, que marcava o nosso encontro no Auditório da Escola Parque, mostrando-nos belos e artísticos filmes, ensinando-nos a enxergar a beleza que o desconhecimento da técnica não nos permitia captar.

O médico Abadio Neder, atendendo-nos com presteza, carinho e competência.

Aos sábados, os concertos do maestro Cláudio Santoro, regendo a orquestra da Universidade, onde professores e alunos, juntos, escutavam, embevecidos, músicas de excelente qualidade.

O André, sorridente, servindo-nos o cafezinho, entendendo o seu papel naquela grande obra que se estava realizando.

No restaurante Bandejão, professores e alunos almoçando juntos.

Aquela quantidade de jovem, com toda a liberdade e na maior disciplina, admirando e respeitando, em cada mestre, o talento e a competência.

Darcy Ribeiro trouxe para o Planalto Central o melhor da intelectualidade brasileira: cientistas, artistas, arquitetos, escritores que efetivamente construíram uma nova universidade brasileira que baniu a cátedra vitalícia, criou o sistema de departamentos, democratizou a estrutura e a gestão das instituições de ensino superior em nosso País.

Todos eles devem ter sonhado um futuro brilhante, altivo, decente, com o mesmo espírito de grandeza com que a Universidade de Brasília foi criada.

Vera Brant – escritora. Autora do Livro “Darcy”, da Editora Paz e Terra